Irmãos Unidos
Testemunhas da Unidade da Igreja
Por Rodrigo Abarca
A
história dos irmãos esquecidos teve na antiga Boêmia (atual República Tcheca)
uma trajetória trágica e heroica. Os nomes de John Huss e Jerônimo de Praga,
entre outros, são relembrados com amor por muitos crentes de hoje. No entanto,
poucos sabem ou recordam daqueles fiéis santos que junto com eles e depois
deles combateram ardentemente pela fé e influíram poderosamente nos
acontecimentos posteriores à Reforma.
Precursores:
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| John Wycliff (1320-1384) |
No
centro desta reação se encontrava John Wycliff ou Wycliffe, que era considerado o erudito
mais eminente da Universidade de Oxford no seu tempo. Este ensinou a liberdade
de todo homem de relacionar-se com Deus diretamente e sem intermediários.
Também, que a Bíblia era a única fonte de autoridade e verdade para os crentes.
Não obstante, a sua contribuição mais importante foi a sua tradução da Bíblia
para o inglês comum do seu tempo.
Também
organizou e preparou numerosos grupos de pregadores itinerantes, que espalhou a
semente do evangelho por toda a Inglaterra e ainda mais adiante. Wycliff teve
uma vida longa e frutífera, e nunca pôde ser alcançado pela mão dos seus
inimigos. Não obstante, depois da sua morte, a igreja organizada obteve do rei
Henrique IV a assinatura de várias leis para perseguir os Lolardos. Como
conseqüência, muitos crentes foram capturados e executados como hereges. No
entanto, embora exilados e escondidos, os irmãos permaneceram ativos por muitos
anos mais.
A chama é Acesa na Boêmia:
Entre
os estudantes que escutavam avidamente a John Wicliff em Oxford, havia um jovem
estrangeiro chamado Jerônimo de Praga, natural da Boêmia. Este retornou para a
sua pátria ardente com o fogo dos ensinos do notável erudito inglês, e começou
a ensinar ousadamente que a cristandade organizada se afastou completamente do
evangelho de Jesus Cristo, e que a salvação só poderia ser encontrada nos seus
ensinos.
Outro
jovem, alto e magro, e apesar da sua juventude, também era um grande erudito,
escutou-o com atenção e logo foi ganho para a sua causa. Chamava-se John Huss,
e era doutor em teologia, pregador oficial da cidade de Praga e confessor da
rainha da Boêmia.
Era,
além disso, eloquente, de maneiras amáveis e uma profunda fé, por isso muito em
breve as suas pregações atraíram poderosamente a atenção dos seus concidadãos.
A verdade é que estava trabalhando sobre um terreno longamente abonado pelos
Valdenses, que tinha chegado até ali nos tempos de Pedro de Valdo. E também,
falava e pregava na língua tcheca, o que concordava com o sentimento patriótico
antigermânico que se respirava em sua terra, submetida ao jugo alemão.
A
rivalidade entre teutones e tchecos tomou então uma forma religiosa, pois os
primeiros se alinharam com a igreja organizada, enquanto que os últimos com os
ensinos de Wycliff. O Arcebispo de Praga excomungou a Huss e queimou
publicamente os escritos de Wycliff. No entanto, o rei da Boêmia, a nobreza e o
povo, deram-lhe o seu apoio. Então foi realizado o Concílio de Constanza, e
Huss foi chamado para comparecer amparado em um salvo-conduto do Imperador, que
comprometia a sua palavra garantindo-lhe proteção.
No entanto, os clérigos do
concílio o prenderam imediatamente e o lançaram num calabouço, depois de
receber e promulgar a conveniente e infalível "revelação" de que a
igreja não está obrigada a guardar a palavra dada aos hereges.
Huss
resistiu corajosamente o escárnio, a burla, as ameaças e as torturas que foi
submetido para que renunciasse a sua fé. Nada conseguiu intimidá-lo.
Finalmente, foi condenado a ser queimado na fogueira por "estar infectado
com a lepra dos Valdenses" e haver sustentado as doutrinas heréticas de
John Wycliff. A sentença se cumpriu em 6 de Julho de 1415.
Mas
os ensinos de John Huss não morreram com ele. Jerônimo de Praga continuou
pregando em sua cidade, e logo o seguiu no caminho do martírio. Os seus
seguidores se dividiram em três grandes correntes: Aqueles que dispuseram para
tomar as armas e lutar por "sua fé e sua pátria"; aqueles que
procuraram um entendimento e acordo com a igreja organizada; e, finalmente,
aqueles que se dispuseram a enfrentar valente e pacificamente o sofrimento e a
morte, sem negociar a sua fé.
Os
primeiros, chamados taboritas, iniciaram uma longa guerra contra o imperador e
a igreja organizada, com desastrosas conseqüências para ambos os lados, embora
por um tempo conseguissem impor os seus termos após ganhar algumas batalhas
importantes. O segundo, conhecidos como utraquistas, concordaram em formar uma
igreja nacional tcheca, submetida ao papado, mas com alguns privilégios
"relativos". O último, não obstante, seguindo os antigos ensinos
Valdenses, preferiram pôr a sua confiança somente em Cristo e procuraram
encontrar na Escritura uma expressão mais pura e original da igreja, sem
importar o preço que poderiam pagar. Assim se converteram nos "Irmãos
Unidos".
Fé e Crescimento:
Entre
eles se destacou Peter Cheltschizki, que possuía um claro e incomum
entendimento da igreja, segundo as Escrituras. Em seu livro, A Rede da Fé,
escreveu: "Nos tempos dos apóstolos, as igrejas dos crentes eram nomeadas
de acordo com as cidades, vilas e distritos, e eram assembleias e igrejas de
crentes, e de uma fé.
Estas igrejas foram separadas dos incrédulos pelos
apóstolos. Não pretendo que os crentes possam, em um sentido físico e local,
estarem todos separados em uma rua particular da cidade, e sim, que estejam
unidos e associados pela fé e se reúnam em reuniões locais, onde tenham
comunhão uns com outros nas coisas espirituais e na Palavra de Deus. E em
acordo com tal associação na fé e nas coisas espirituais sejam chamados igrejas
de crentes".
Nas
palavras citadas acima, vemos que os "Irmãos Unidos", alcançaram uma compreensão
da verdadeira natureza da igreja muito superior a do seu tempo. As assembleias
de crentes que menciona Cheltschiziki espalharam-se rapidamente por todo o
país. Opunham-se decididamente ao uso das armas em defesa da fé e também a
qualquer acordo com a igreja organizada que comprometesse a essência da fé. No
entanto, tinham um espírito aberto e inclusivo, em razão, possivelmente da
influência valdense, e tendiam a considerar e receber a todos os filhos de Deus
como verdadeiros irmãos, sem importar o contexto de onde procedessem.
Em
1457, um irmão chamado Gregório fundou uma comunidade de irmãos no nordeste da
Boêmia, na vila de Kunwald. Muitos crentes convergiram para lá, inclusive
seguidores de Cheltschiziki e Valdenses. Embora mantivessem contato com a
igreja utraquista, em muitos assuntos procuraram retornar à fé e práticas do
Novo Testamento. Rapidamente, no entanto, a perseguição se abateu sobre eles
desencadeada pela própria igreja utraquista. Gregório foi aprisionado e
torturado; outro de seus líderes, Tiago Hulava foi queimado, então os irmãos se
esconderam nos bosques e montanhas. Apesar de tudo o seu número cresceu
significativamente em todas as partes.
Em
1463 e logo depois em 1467 se realizaram conferências gerais de Irmãos onde
voltaram a considerar os princípios básicos da igreja. Nessa oportunidade
afirmaram novamente a sua separação da Igreja Oficial e se chamaram a si mesmos
de 'Jednota Bratraskâ', ou 'Unitas Fratum', que quer dizer, 'Os Irmãos Unidos'.
Não fizeram isto para fazer diferenças aos outros irmãos das outras várias
igrejas espalhadas em outras regiões, mas simplesmente para dar um testemunho
de unidade e encorajar outros crentes que estavam se separando da Igreja
Oficial.
Nessa
mesma reunião foram nomeados alguns anciões que foram enviados para a Áustria
para serem confirmados pelo bispo valdense, Estevão, estabelecendo assim uma
continuidade com os antigos portadores da chama do testemunho. Não consideravam
isto como essencial, mas desejavam expressar a sua unidade e continuidade com
aqueles que dos tempos do papa Silvestre tinham preservado um vínculo
espiritual com o ensino apostólico. Depois
disto, informaram a sua decisão ao bispo utraquista Rokycana, dizendo que em
seu ato de separação não estavam excluindo os outros crentes, pois reconheciam
que fora das suas assembleias haviam muitos filhos de Deus.
Um
deles escreveu: "Ninguém pode dizer que nós condenamos e excluímos a todos
que permanecem obedientes à igreja Romana. Esta não é de nenhuma maneira, a
nossa convicção.... tal como não excluímos os escolhidos nas igrejas da Índia
ou Grécia, tampouco condenamos os escolhidos no meio dos romanos". Este
espírito inclusivo e aberto à unidade de todos os filhos de Deus caracterizou
sempre os Irmãos Unidos.
As
comunidades de Irmãos floresceram em muitos lugares, especialmente na Holanda e
Alemanha. Além do seu notável desenvolvimento espiritual, houve entre eles
muitos homens com grande preparo e capacidade intelectual, bem como de posição
social e riqueza, que estiveram sempre dispostos a compartilhar o que tinham
com os seus irmãos mais pobres, de modo que se pode dizer também deles, como se
escreveu dos santos do Novo Testamento, que "não havia entre eles nenhum
necessitado".
Um
dos seus avanços mais significativos foi feito no campo da educação. A sua meta
era ter uma educação apoiada no Evangelho de Cristo. As suas escolas foram
muito prezadas e respeitadas na Holanda e Alemanha. Erasmo, o famoso erudito
renascentista, foi aluno em uma delas, em Deventer, Holanda. De fato, até o dia
de hoje são estudados os seus métodos e contribuições no campo da educação em
muitos campus universitários do mundo, especialmente nos escritos de um dos
seus líderes mais proeminentes, Nicolás Comenius.
Guerras e Perseguições:
Em
1507, seus perseguidores da igreja oficial conseguiram persuadir o rei da
Boêmia de que o poder crescente dos Irmãos era uma ameaça. Este publicou então
o decreto de Saint James, ordenando que todos eles se unissem à igreja oficial
ou abandonassem o país. Como conseqüência, as suas reuniões foram fechadas, os
seus livros queimados e eles encarcerados, exilados ou cruelmente martirizados.
Com
o advento da Reforma, os irmãos entraram em contato com os líderes protestantes
e os seus príncipes. Quando estourou a guerra entre católicos e protestantes,
os nobres boêmios que pertenciam aos Irmãos Unidos decidiram apoiar o grupo
protestante. As conseqüências foram, uma vez mais, desastrosas. Pois após serem
derrotados na batalha de Mühlberg (1547), os nobres foram encarcerados e executados
pelo rei da Boêmia, Ferdinand. Uma vez mais as suas posses foram confiscadas e
as suas reuniões encerradas. Mas, além disso, ordenou-lhes que deixassem o país
num prazo de seis meses.
Começou
então uma maciça emigração, em que grandes caravanas de irmãos se dirigiram
para a Polônia, e em seguida para a Alemanha procurando refúgio. Ali foram
recebidos depois de muitos esforços e sofrimentos. No entanto a sua
peregrinação ainda não tinha acabado. Conseguiram retornar ao seu país, mas,
por quase 70 anos, a sua sorte variou de acordo com os vai-vêm das guerras
entre protestantes e católicos, que devastaram a Europa por 30 anos. Mas
naqueles anos realizaram a grande obra de traduzir a Bíblia das línguas
originais para o seu idioma nativo, o tcheco (1579 a 1593). Esta tradução tem
sido a base da Bíblia tcheca até hoje, e, além disso, estabeleceram o
fundamento para o desenvolvimento da literatura tcheca.
A
última batalha entre protestantes e católicos na Boêmia terminou no White
Mountain (1620). A derrota protestante foi completa e como conseqüências 36.000
famílias de crentes foram novamente obrigadas a deixar a Boêmia. E isto
implicou no fim da chamada 'religião Hussita' que desapareceu junto com a
independência da Boêmia.
Um Testemunho Imperecível:
Não
obstante, apesar de tudo, um pequeno remanescente sempre se manteve fiel,
negando-se a participar das
guerras e tomar a espada. Neles sobreviveu o
espírito e a visão original dos Irmãos. Estes viveram perseguidos, errantes e
escondidos, em diferentes lugares da Europa central, inclusive em bosques
distantes e escuros, por muitos anos. E depois de uma longa peregrinação e
inexprimíveis sofrimentos, chegaram uma época depois a uma pequena aldeia na
Morávia, onde o Conde Zinzendorf tinha construído uma cidade de refúgio para os
irmãos perseguidos. E ali contribuíram para acender uma vez mais a chama do
testemunho de Jesus Cristo, provendo a base do futuro movimento morávio, chegando a ser conhecido como maior evento de impacto missionário dentro da História da Igreja, com número de irmãos notável enviados á várias partes do mundo para a pregação e propagação do evangelho de Cristo. Dois destes irmãos ficaram conhecidos pelo ato de coragem, por se venderem como escravos e entrarem em um navio, para pregar o evangelho em terras desconhecidas em meio à uma tribo de canibais, e interpelados no momento da partida do navio, questionaram a eles, perguntando se eles tinham a consciência de que aquela poderia ser uma viagem sem volta; e eles responderam em alto e bom tom: "Que o Cordeiro receba a recompensa do seu sacrifício."No
entanto esse é outro capítulo da história, que será narrado mais tarde.
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| Nicolas Ludwig Von Zinzendorf (1700-1760) |
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| Jan Amós Comnius (1592 - 1670) Pai da Pedágogia |
O
que se obtém com isto? Alguma vez uma disputa erudita alcançou êxito? Nunca. O
número delas simplesmente cresceram... Os sacramentos, dados como símbolos da
unidade, de amor e da nossa vida em Cristo, foram ocasião do mais amargo
conflito, a causa do ódio mútuo, o centro do sectarismo...".
"Desta
forma, a Cristandade se converteu em um labirinto. A fé foi dividida em
milhares de pequenas partes e você é considerado um herege se não aceitar uma
delas... O que isto nos ajudará? Somente, uma coisa é necessária: Retornar a
Cristo, olhar para Cristo como o único Líder, e caminhar nas suas pisadas,
deixando de lado todo outro caminho, até que alcancemos a meta, e cheguemos à
unidade da fé (Ef. 4:13)... Assim que, saiba, OH Cristandade, qual é a única
coisa necessária. Ou retornas para Cristo, ou vais para a perdição como o
Anticristo. Se for sábia e desejas a vida, segue o Líder, Jesus Cristo".
"Mas
vocês, cristãos, regozijem-se em sua exaltação,... escutem as palavras do Líder
Celestial: "Vinde a Mim"... e respondam a uma voz: "Assim seja,
vamos".




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