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Os Anabatista
E as Raízes do Evangelho
Por Rodrigo Abarca

Ao longo de toda a Idade Média, numerosos grupos de crentes deixaram o cristianismo organizado dos seus dias, para experimentar uma fé mais viva, singela e real, conforme o padrão de fé e prática que encontravam na Bíblia. Foram perseguidos e martirizados aos milhares por causa do seu testemunho e, em algumas regiões, quase exterminados. No entanto, não foram destruídos totalmente e permaneceram ocultos, espalhados aqui e ali por toda a Europa, até o advento da Reforma. Então saíram novamente para a luz, animados pela chama que um remoto monge agustino tinha aceso ao cravar as suas 95 teses na porta da catedral de Wittenberg, por volta do ano 1517. 

Estava nascendo a Reforma, e aquele desconhecido monge não podia suspeitar ainda que a pequena chama recém acesa, logo se converteria em uma fogueira que faria arder a Europa inteira, e transtornaria para sempre a história do cristianismo e ainda da própria civilização ocidental.
Martin Lutero acendeu a chama, mas muitos outros tinham trabalhado antes preparando a fogueira. Por isso, quando escutou o seu grito de batalha «só a fé e só a Escritura», os olhos de muitos se elevaram esperançados em torno da promessa do novo dia que parecia despontar no horizonte, entre as ruínas da decadente cristandade do seu tempo. No entanto, o dia chegou carregado de enormes contrastes, com uma tormenta de luzes e sombras, nuvens escuras e reluzentes raios de sol.

Os Reformadores protestantes procuraram retornar para a Bíblia como única norma de fé e conduta. Não obstante, aos olhos de muitos cristãos daqueles dias, a restauração que propiciaram não foi suficientemente radical e ficou, por assim dizer, a meio caminho. Estes «outros» irmãos procuraram uma restauração muito mais fundamental, que retornasse à mesma essência da igreja, tais como a encontravam nas páginas do Novo Testamento. Os seus inimigos os chamaram anabatistas, palavra grega que significa «rebatizadores», devido a sua rejeição do batismo infantil e sua forte ênfase na conversão individual, confirmada pelo batismo voluntário como sinal exterior. Mas eles, a si mesmos, simplesmente se chamavam «irmãos».

O Início:

Os historiadores datam usualmente a origem dos anabatistas em 1525, na cidade Suíça de Zurique. Ali o reformador Ulrico Zwinglio estava começando a reforma protestante em estreita aliança com os magistrados da cidade. Entre os seus mais precoces seguidores estavam dois brilhantes eruditos, que pertenciam a algumas das famílias mais abastadas da cidade: Conrad Grebel e Félix Manz. Este último era amigo próximo do reformador suíço. No entanto, muito em breve começaram a discordar de alguns dos seus ensinos, especialmente com relação à natureza da igreja e a salvação.
Zwinglio ensinou, no princípio, que a restauração da fé devia ser um retorno completo às Escrituras, e que tudo aquilo que não estivesse explicitamente contido nelas devia ser descartado. Manz e Grebel aderiram calorosamente a este princípio.

Não obstante, pouco depois, Zwinglio mudou de opinião, e desenvolveu o que deveria ser a postura protestante clássica, sustentada também por Lutero, e mais adiante por Calvino: Tudo aquilo que se encontra explicitamente proibido nas Escrituras deve ser descartado, enquanto que o resto pode ser mantido, enquanto não transgrida os seus ensinos. A magnitude desta divergência era enorme, pois permitia que muitos reformadores contemporizassem em diversos assuntos de prática eclesiástica com os príncipes e magistrados do seu tempo, a fim de garantir o seu respaldo à causa protestante. Na verdade, todos eles estavam, em maior ou menor grau, convencidos de que a reforma protestante não podia ter êxito sem o apoio político e militar dos príncipes. 

Assim, Zwinglio tentou criar uma igreja nacional «a Suíça», que incluísse a todos os «cidadãos suíços» nela, sem importar se eram ou não verdadeiramente cristãos. Por esta e outras razões, continuou aceitando o batismo infantil, pois, logicamente, em seu conceito de igreja não cabiam a necessidade de conversão e regeneração individual.

Contra este estado de coisas reagiram Manz, Grebel e todos os outros anabatistas. Para eles, o princípio era inaceitável, pois violava o claro ensino da Escritura sobre a igreja como uma nação composta unicamente de homens e mulheres redimidos, visivelmente separados do mundo, e submetida somente à autoridade de Cristo a sua cabeça. Para nós hoje, esta verdade pode parecer óbvia, mas, por muitas razões não era assim para a maioria dos líderes protestantes. 

Causas da Divergência Anabatista:

Durante a longa noite medieval, a identidade entre igreja e cristandade, considerada esta última como a soma das nações cristãs, considerou-se um dogma incontrovertível da fé. Este modo de ver as coisas se originou com a conversão do imperador romano Constantino em 312 D. C., e em sua posterior confirmação do cristianismo como religião oficial do império. Logo veio outro imperador, Justiniano, que em seu famoso código declarou a religião exclusiva, e autorizou o uso da força e da espada contra os dissidentes, fossem «cismáticos» ou «hereges». Deste modo, cristianismo e império se fizeram quase sinônimos. O império protegia à igreja e a igreja legitimava o império. Podemos dizer, igreja e estado estavam unidos.

Desta paradoxal simbiose surgiu a cristandade medieval, depois da queda do império romano do ocidente. Esta queda produziu um imenso vazio de poder e organização dentro das zonas geográficas abrangidas pela desaparecida administração imperial e os povos que estavam sob o seu domínio. 

Mas, a igreja cristã organizada foi enchendo esse espaço, devido, em grande parte, de que nela tenha sobrevivido muito da organização e eficiência administrativa do império que muitos recordavam com nostalgia. 

Não obstante, com o advento da Reforma, a situação política mudou, pois muitos dos príncipes e reis europeus estavam cansados de submeter-se ao que consideravam um domínio despótico e abusivo. No entanto, compreendiam que para obter a sua independência deveriam contar com o apoio do povo e para isso tinha que oferecer aos seus súditos uma religião que substituiria a oficial e os libertasse do controle que esta exercia sobre as suas consciências.

Mas deveria ser uma religião para «todos» os seus súditos, por assim dizer, nacional. Portanto, o seu apoio à Reforma esteve sempre condicionado por esta perspectiva e necessidade. Que não nos interprete mal. Sem dúvida, alguns deles foram crentes sinceros e piedosos, mas, indevidamente o seu horizonte político-cultural condicionou e limitou a sua visão da igreja, assim como a visão dos reformadores aos que prestaram o seu apoio político e militar. 

Contra esta nova forma - união da igreja e do estado - os anabatistas reagiram, reconhecendo com clareza o engano da perspectiva de quem a sustentava e procurando lançar a luz da Palavra sobre este transcendental assunto por meios pacíficos. 

Neste ponto se encontra a origem da tragédia anabatista. Comenta Ismael Amaya: «Sem dúvida que seria difícil encontrar na história da igreja um acontecimento mais triste que o caso dos anabatistas. 

Parecia que os anabatistas estavam contra todos, e todos contra eles. Posto que rejeitavam os ensinos tanto de Lutero como de Zwinglio, e também do catolicismo, foram vítimas de cruéis perseguições da parte de todos eles. Mas a sua rejeição da união entre a igreja e o estado, e do próprio estado, fez que as autoridades seculares os considerassem como insurretos. Segundo o conceito prevalecente daquela época, a separação entre a igreja e o estado era impossível. Ao afirmar esta doutrina, os anabatistas escolheram o sangrento caminho dos mártires, e seu martírio constitui em um monumento impressionante da Reforma.

Sacrificaram-se por um princípio que era inaceitável para a sociedade e a igreja do seu tempo. Como se opunham ao catolicismo, ao luteranismo, e ao zwinglianismo, a igreja os considerava hereges, e como rejeitavam o estado, este os tratava como rebeldes. Em conseqüência, foram vistos como inimigos pelos príncipes, pelos reformadores protestantes, e pelos líderes católicos, que os perseguiu sem piedade».

Muito em breve, esta discrepância levou, tanto a Grebel como a Manz, a distanciar-se de Zwinglio. Em 21 de janeiro de 1525, ambos foram batizados junto com alguns seguidores radicais de Zwinglio. Pois, depois de muito estudo e cuidadosa oração, tinham chegado à convicção de que deviam batizar-se uns aos outros. Este acontecimento marcou o começo do movimento anabatista. Para eles o batismo (que praticavam por rociamento ou «aspersão») era a única forma de testemunhar o verdadeiro arrependimento e a conversão pessoal. Em conseqüência, dentro de pouco tempo começaram a pregar e batizar crentes por toda a Suíça.

Zwinglio e os magistrados da cidade reagiram decretando severas leis contra quem se «rebatizava» (pois todos, a juízo deles, já tinham sido batizados quando meninos), incluindo a pena de morte por afogamento; castigo que se converteu na forma de martírio mais comum entre os anabatistas e para o qual chamaram, de o «terceiro batismo». E, além disso, convocaram às autoridades de toda a Europa para «caçá-los e a prendê-los». Grebel fugiu junto com outros irmãos, e morreu de peste em 1526, depois de pregar o evangelho em outras cidades da Suíça. Félix Manz foi preso por Zwinglio e as autoridades de Zurich, amarados e lançados nas frias águas do rio Limmat, que corre pelo centro da cidade. 

A perseguição contra os anabatistas se prorrompeu com uma crueldade inusitada por toda a Europa, tanto nos países católicos como protestantes. Milhares de homens e mulheres foram afogados, enterrados vivos, e queimados.

Constituíram-se corporações especiais de polícia para buscá-los, chamados Täuferjäger (caçadores de anabatistas). Os filhos dos mártires eram arrancados das suas famílias e entregues às famílias de grupos eclesiásticos oficialmente reconhecidos. Em todas as partes a perseguição dos anabatistas se converteu em uma política de estado. 

Ensinos e práticas:

Devido à precoce morte dos seus líderes mais destacados, os anabatistas nunca chegaram a escrever uma exposição detalhada e sistemática dos seus ensinos. Na verdade, tampouco desejavam criar um sistema de doutrina acabado e excludente. E, além disso, nunca chegaram a constituir um movimento organizado. Por este motivo, costumam reunir sob o rótulo de anabatistas grupos com interesses e crenças muito distintas e inclusive opostas. 

Em geral, são reconhecidos três grandes ramos: os anabatistas propriamente ditos», «os espirituais», e os racionalistas anti-trinitarios – embora, os seus perseguidores não os distinguiam e consideravam a todos como uma só coisa. 

Dentre eles, os que nos interessa neste artigo são os primeiros. Estes adotaram com simplicidade as doutrinas cristãs históricas tais como a Trindade e as duas naturezas de Cristo (completamente divino e completamente humano), sem nenhum interesse especulativo ulterior. Da mesma forma que Zwinglio, Lutero e Calvino, criam na salvação somente pela graça, por meio da fé e sem obras meritórias, a autoridade final das Escrituras e o sacerdócio de todos os crentes. Mas divergiam deles quanto a sua prática e aplicação.

Com respeito à salvação, a par da justificação pela fé, enfatizavam a regeneração interior e uma vida posterior de verdadeira transformação como evidência dela. Do mesmo modo, davam especial ênfase à responsabilidade pessoal e à conversão individual. Não aceitavam o batismo de meninos, ao que considerava ineficaz, pois, diziam, somente aqueles que se converteram de maneira responsável e consciente podem receber o batismo como sinal dessa conversão. E também, praticavam de modo real o sacerdócio de todos os crentes, pois as suas reuniões eram abertas à participação de todos os irmãos e irmãs, enquanto que os seus pastores e pregadores surgiam dentre os próprios irmãos, muitas vezes, sem nenhuma preparação formal. Além disso, praticavam uma intensa vida de comunhão entre si, partindo o pão e orando juntos pelas casas. 

Na verdade, desejavam formar igrejas de crentes segundo o modelo do Novo Testamento, em oposição às «igrejas estatais», onde era impossível distinguir entre crentes falsos e verdadeiros. 
Por outro lado, rejeitavam as perseguições por motivos religiosos e as guerras associadas a elas. Foram convencidos pacificadores em uma era onde o ódio e a intolerância parecia ser a norma. Deve-se, pelo mesmo motivo, rejeitar a conhecida tese de que as crueldades da cristandade do seu tempo se explicam pelo «espírito da época». Os irmãos deixaram muito claros, para qualquer que queria escutá-los, que o verdadeiro espírito do evangelho é muito distinto. E é necessário afirmar que tanto Lutero, como Zwinglio, Calvino e outros líderes da Reforma conheciam muito bem os seus ensinos. No entanto, pelo que parece não lhes afetaram muito.

Baltasar Hubmaier:

Grande parte dos principais ensinos dos irmãos foram desenvolvidos e expostos, depois da morte de Grebel e Manz, por Baltasar Hubmaier, que se converteu em uns dos líderes mais importantes e influentes na história dos irmãos. Hubmaier tinha sido um erudito católico influente e reconhecido em toda a Europa. A sua conversão ao protestantismo foi considerada como um grande triunfo para a causa reformada. Era amigo de Erasmo e coincidia com os pacíficos e amáveis ideais cristãos do famoso humanista. Com respeito aos «caçadores de hereges», tanto católicos como protestantes, escreveu: «Os inquisidores são piores que todos os hereges, porque, contrariando a doutrina e o exemplo de Jesus, condenam os hereges à fogueira... Porque Cristo não veio para mutilar, matar, ou queimar, mas sim para que as pessoas vivam com abundância». 

Depois da sua conversão, em 1522, foi obrigado a deixar o seu cargo de vice-reitor da universidade católica de Regensburg, Alemanha. Dali se mudou para Waldshut, perto de Zurich, na Suíça, para se encarregar de uma recém nascida congregação protestante. Não se sabe bem como entrou em contato com as idéias anabatistas, mas é provável que fosse através dos irmãos associados com Grebel e Manz. Em 1525, começou a pregar em oposição ao batismo infantil e pouco depois levou cerca de 300 pessoas da congregação em Waldshut a batizar-se, em um domingo de Páscoa.

A partir dali, começou uma discussão violenta com Zwinglio, defendendo a causa anabatista. Mas quando a polícia do imperador apareceu em Waldshut, viu-se obrigado a fugir para Zurich, onde foi detido rapidamente por Zwinglio e seu grupo. Depois de um tempo na prisão, debateu publicamente com Zwinglio em um precário estado de saúde e foi esmagado facilmente por seu robusto oponente. 

Logo depois, por último o mandou torturar para conseguir a sua retratação. Hubmaier cedeu sob a tortura, assinou a retratação requerida, e foi posto em liberdade. No entanto, imediatamente se arrependeu com amargura de sua fraqueza e temor. Fugiu para a Morávia, onde continuou a sua obra.
Ali se converteram e foram batizadas mais de 6.000 pessoas como fruto do seu ministério.

Finalmente, em 1527, os Täufer-jäger do imperador o capturaram e o levou preso para Viena para ser julgado e executado. Foi queimado publicamente na praça do mercado, e enquanto as chamas envolviam o seu corpo, o escutaram repetir várias vezes, «Jesus; Jesus!», antes que o fogo silenciasse para sempre a sua voz neste mundo. Três dias depois, a sua valente esposa foi jogada de uma ponte nas escuras águas do rio Danúbio, com uma pesada pedra atada ao pescoço. 
Hubmaier, da mesma forma que todos os anabatistas, foi acusado de rejeitar toda forma de governo e ainda a própria existência do estado. No entanto, ele negava esta acusação, afirmando que era necessário obedecer aos príncipes e governadores enquanto isso não exija desobedecer a Palavra de Deus. O que na verdade rejeitava é a união da igreja e o estado, ao mesmo tempo que defendia a liberdade de consciência.

Johanes Denck:

Outro líder importante durante os primeiros dias dos irmãos foi Johanes Denck, que em Basel tinha entrado em contato com Erasmo e criado uma amizade com o grupo de destacados eruditos que se reuniam em torno dele. Em seguida foi professor em uma das escolas mais importantes de Nüremberg, cidade onde o jovem luterano Ossiander levava adiante a Reforma. 
Denck se desiludiu profundamente dela, ao observar que muitos dos que se diziam nominalmente justificados pela fé não mostravam nenhuma mudança real em suas vidas, e muito menos uma conduta santa. Para ele, isto não era senão o sinal de uma séria carência no evangelho que estava sendo pregado. Ossiander o denunciou aos magistrados da cidade e estes o ameaçaram a abandoná-lo, sem lhe permitir uma defesa pública de sua fé, alegando que era muito hábil e ardiloso na apresentação dos seus enganos. Denck se despediu de sua família e partiu para uma vida de desterro errante até o fim dos seus dias. 

Onde quer que fosse, foi seguido pela calúnia e pela difamação. Os seus inimigos lhe atribuíam toda classe de doutrinas perversas e diziam para evitá-lo como a um homem extremamente perigoso. Apesar de toda aquela violenta difamação, muitas vezes escrita, Denck jamais pagou na mesma moeda em seus escritos. Não se percebe neles nenhum sinal de amargura ou rancor para quem o caluniava. 

Mesmo em um tempo de especial pressão contra ele, escreveu a respeito deles: Aflige-me o coração o estar em desunião com muitos dos quais, de outra maneira, não posso considerar senão como meus irmãos, porque adoram ao mesmo Deus que eu adoro, e honram ao Pai que eu honro. Por conseguinte, se Deus o quiser e até onde seja possível, não farei de meu irmão um adversário, tampouco do meu Pai um juiz, mas, enquanto estou no caminho, estarei reconciliado com todos os meus adversários.

Esta admirável declaração expressa muito bem a atitude com a qual milhares de irmãos enfrentaram a perseguição e inclusive o martírio durante aqueles dias, deixando detrás de si um perdurável testemunho do verdadeiro espírito do Senhor Jesus Cristo e seu evangelho.
Denck cumpriu até o fim com este propósito. De Nüremberg passou a Augsburgo, onde conheceu a Hubmaier e foi batizado, ligando-se assim com os irmãos anabatistas. Depois de um tempo de ministério ali, a obra cresceu rapidamente, mas teve que fugir novamente e procurar refúgio em Estraburgo, onde existia uma importante assembléia de irmãos batizados. Nessa cidade os líderes do partido protestante eram Capito e Bucer. O primeiro simpatizava com os irmãos e tinha esperanças de chegar a um entendimento com eles. No entanto, Bucer receava a sua influência e solicitou aos magistrados que expulsassem a Denck. 

Obrigado pela situação, partiu para Worms, onde se deu à tarefa de traduzir e imprimir os Profetas Maiores e Menores. Voltou novamente para Augsburgo para uma conferência de irmãos vindos de vários distritos. Ali se opôs decididamente a aqueles que se inclinavam ao uso da força contra quem os perseguia. A chamou, «a conferência dos mártires», devido ao grande número de participantes que mais tarde selaram a sua vida com o martírio.

Finalmente, em 1527, depois de ir de uma parte para outra, açoitado e rejeitado, e após passar por muitas aflições e necessidades, Denck chegou a Basel com a sua saúde debilitada. Ali voltou a encontrar-se com os velhos amigos da sua juventude. O compassivo reformador Ecolampadio o encontrou quase moribundo e o acolheu em sua casa, onde pouco tempo depois morreu, finalmente em descanso e em paz.

Pouco antes de morrer, escreveu: Deus sabe que não procuro outro fruto, exceto o que realmente muitos, com um coração e uma alma, glorifiquem ao Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, sejam ou não circuncidados e batizados. Porque penso de um modo muito distinto daqueles que unem o Reino de Deus excessivamente a cerimônias e elementos deste mundo, quaisquer que eles sejam. Naqueles dias de escassa tolerância, afirmou: Em assuntos de fé, todos deveriam ser livres para atuar voluntariamente e por própria convicção.

Irmãos Unidos
Testemunhas da Unidade da Igreja
Por Rodrigo Abarca


A história dos irmãos esquecidos teve na antiga Boêmia (atual República Tcheca) uma trajetória trágica e heroica. Os nomes de John Huss e Jerônimo de Praga, entre outros, são relembrados com amor por muitos crentes de hoje. No entanto, poucos sabem ou recordam daqueles fiéis santos que junto com eles e depois deles combateram ardentemente pela fé e influíram poderosamente nos acontecimentos posteriores à Reforma.

Precursores:

John Wycliff  (1320-1384)
Durante o século XV, a Inglaterra foi o cenário de uma importante tentativa de retornar a uma fé mais bíblica e espiritual por parte de um notável grupo de crentes, a quem seus inimigos deram o nome de Lolardos. A princípio, a sua reação foi contra a corrupção e a escandalosa riqueza de uma parte do clero. Mas, progressivamente, foi derivando para um interesse muito mais profundo com respeito aos assuntos básicos da fé.

No centro desta reação se encontrava John Wycliff ou Wycliffe, que era considerado o erudito mais eminente da Universidade de Oxford no seu tempo. Este ensinou a liberdade de todo homem de relacionar-se com Deus diretamente e sem intermediários. Também, que a Bíblia era a única fonte de autoridade e verdade para os crentes. Não obstante, a sua contribuição mais importante foi a sua tradução da Bíblia para o inglês comum do seu tempo.

Também organizou e preparou numerosos grupos de pregadores itinerantes, que espalhou a semente do evangelho por toda a Inglaterra e ainda mais adiante. Wycliff teve uma vida longa e frutífera, e nunca pôde ser alcançado pela mão dos seus inimigos. Não obstante, depois da sua morte, a igreja organizada obteve do rei Henrique IV a assinatura de várias leis para perseguir os Lolardos. Como conseqüência, muitos crentes foram capturados e executados como hereges. No entanto, embora exilados e escondidos, os irmãos permaneceram ativos por muitos anos mais.

A chama é Acesa na Boêmia:

Entre os estudantes que escutavam avidamente a John Wicliff em Oxford, havia um jovem estrangeiro chamado Jerônimo de Praga, natural da Boêmia. Este retornou para a sua pátria ardente com o fogo dos ensinos do notável erudito inglês, e começou a ensinar ousadamente que a cristandade organizada se afastou completamente do evangelho de Jesus Cristo, e que a salvação só poderia ser encontrada nos seus ensinos.
Outro jovem, alto e magro, e apesar da sua juventude, também era um grande erudito, escutou-o com atenção e logo foi ganho para a sua causa. Chamava-se John Huss, e era doutor em teologia, pregador oficial da cidade de Praga e confessor da rainha da Boêmia.

Era, além disso, eloquente, de maneiras amáveis e uma profunda fé, por isso muito em breve as suas pregações atraíram poderosamente a atenção dos seus concidadãos. A verdade é que estava trabalhando sobre um terreno longamente abonado pelos Valdenses, que tinha chegado até ali nos tempos de Pedro de Valdo. E também, falava e pregava na língua tcheca, o que concordava com o sentimento patriótico antigermânico que se respirava em sua terra, submetida ao jugo alemão.

A rivalidade entre teutones e tchecos tomou então uma forma religiosa, pois os primeiros se alinharam com a igreja organizada, enquanto que os últimos com os ensinos de Wycliff. O Arcebispo de Praga excomungou a Huss e queimou publicamente os escritos de Wycliff. No entanto, o rei da Boêmia, a nobreza e o povo, deram-lhe o seu apoio. Então foi realizado o Concílio de Constanza, e Huss foi chamado para comparecer amparado em um salvo-conduto do Imperador, que comprometia a sua palavra garantindo-lhe proteção. 

No entanto, os clérigos do concílio o prenderam imediatamente e o lançaram num calabouço, depois de receber e promulgar a conveniente e infalível "revelação" de que a igreja não está obrigada a guardar a palavra dada aos hereges.

Huss resistiu corajosamente o escárnio, a burla, as ameaças e as torturas que foi submetido para que renunciasse a sua fé. Nada conseguiu intimidá-lo. Finalmente, foi condenado a ser queimado na fogueira por "estar infectado com a lepra dos Valdenses" e haver sustentado as doutrinas heréticas de John Wycliff. A sentença se cumpriu em 6 de Julho de 1415.

Mas os ensinos de John Huss não morreram com ele. Jerônimo de Praga continuou pregando em sua cidade, e logo o seguiu no caminho do martírio. Os seus seguidores se dividiram em três grandes correntes: Aqueles que dispuseram para tomar as armas e lutar por "sua fé e sua pátria"; aqueles que procuraram um entendimento e acordo com a igreja organizada; e, finalmente, aqueles que se dispuseram a enfrentar valente e pacificamente o sofrimento e a morte, sem negociar a sua fé.

Os primeiros, chamados taboritas, iniciaram uma longa guerra contra o imperador e a igreja organizada, com desastrosas conseqüências para ambos os lados, embora por um tempo conseguissem impor os seus termos após ganhar algumas batalhas importantes. O segundo, conhecidos como utraquistas, concordaram em formar uma igreja nacional tcheca, submetida ao papado, mas com alguns privilégios "relativos". O último, não obstante, seguindo os antigos ensinos Valdenses, preferiram pôr a sua confiança somente em Cristo e procuraram encontrar na Escritura uma expressão mais pura e original da igreja, sem importar o preço que poderiam pagar. Assim se converteram nos "Irmãos Unidos".

Fé e Crescimento:

Entre eles se destacou Peter Cheltschizki, que possuía um claro e incomum entendimento da igreja, segundo as Escrituras. Em seu livro, A Rede da Fé, escreveu: "Nos tempos dos apóstolos, as igrejas dos crentes eram nomeadas de acordo com as cidades, vilas e distritos, e eram assembleias e igrejas de crentes, e de uma fé. 

Estas igrejas foram separadas dos incrédulos pelos apóstolos. Não pretendo que os crentes possam, em um sentido físico e local, estarem todos separados em uma rua particular da cidade, e sim, que estejam unidos e associados pela fé e se reúnam em reuniões locais, onde tenham comunhão uns com outros nas coisas espirituais e na Palavra de Deus. E em acordo com tal associação na fé e nas coisas espirituais sejam chamados igrejas de crentes".

Nas palavras citadas acima, vemos que os "Irmãos Unidos", alcançaram uma compreensão da verdadeira natureza da igreja muito superior a do seu tempo. As assembleias de crentes que menciona Cheltschiziki espalharam-se rapidamente por todo o país. Opunham-se decididamente ao uso das armas em defesa da fé e também a qualquer acordo com a igreja organizada que comprometesse a essência da fé. No entanto, tinham um espírito aberto e inclusivo, em razão, possivelmente da influência valdense, e tendiam a considerar e receber a todos os filhos de Deus como verdadeiros irmãos, sem importar o contexto de onde procedessem.

Em 1457, um irmão chamado Gregório fundou uma comunidade de irmãos no nordeste da Boêmia, na vila de Kunwald. Muitos crentes convergiram para lá, inclusive seguidores de Cheltschiziki e Valdenses. Embora mantivessem contato com a igreja utraquista, em muitos assuntos procuraram retornar à fé e práticas do Novo Testamento. Rapidamente, no entanto, a perseguição se abateu sobre eles desencadeada pela própria igreja utraquista. Gregório foi aprisionado e torturado; outro de seus líderes, Tiago Hulava foi queimado, então os irmãos se esconderam nos bosques e montanhas. Apesar de tudo o seu número cresceu significativamente em todas as partes.

Em 1463 e logo depois em 1467 se realizaram conferências gerais de Irmãos onde voltaram a considerar os princípios básicos da igreja. Nessa oportunidade afirmaram novamente a sua separação da Igreja Oficial e se chamaram a si mesmos de 'Jednota Bratraskâ', ou 'Unitas Fratum', que quer dizer, 'Os Irmãos Unidos'. Não fizeram isto para fazer diferenças aos outros irmãos das outras várias igrejas espalhadas em outras regiões, mas simplesmente para dar um testemunho de unidade e encorajar outros crentes que estavam se separando da Igreja Oficial.

Nessa mesma reunião foram nomeados alguns anciões que foram enviados para a Áustria para serem confirmados pelo bispo valdense, Estevão, estabelecendo assim uma continuidade com os antigos portadores da chama do testemunho. Não consideravam isto como essencial, mas desejavam expressar a sua unidade e continuidade com aqueles que dos tempos do papa Silvestre tinham preservado um vínculo espiritual com o ensino apostólico. Depois disto, informaram a sua decisão ao bispo utraquista Rokycana, dizendo que em seu ato de separação não estavam excluindo os outros crentes, pois reconheciam que fora das suas assembleias haviam muitos filhos de Deus.

Um deles escreveu: "Ninguém pode dizer que nós condenamos e excluímos a todos que permanecem obedientes à igreja Romana. Esta não é de nenhuma maneira, a nossa convicção.... tal como não excluímos os escolhidos nas igrejas da Índia ou Grécia, tampouco condenamos os escolhidos no meio dos romanos". Este espírito inclusivo e aberto à unidade de todos os filhos de Deus caracterizou sempre os Irmãos Unidos.

As comunidades de Irmãos floresceram em muitos lugares, especialmente na Holanda e Alemanha. Além do seu notável desenvolvimento espiritual, houve entre eles muitos homens com grande preparo e capacidade intelectual, bem como de posição social e riqueza, que estiveram sempre dispostos a compartilhar o que tinham com os seus irmãos mais pobres, de modo que se pode dizer também deles, como se escreveu dos santos do Novo Testamento, que "não havia entre eles nenhum necessitado".

Um dos seus avanços mais significativos foi feito no campo da educação. A sua meta era ter uma educação apoiada no Evangelho de Cristo. As suas escolas foram muito prezadas e respeitadas na Holanda e Alemanha. Erasmo, o famoso erudito renascentista, foi aluno em uma delas, em Deventer, Holanda. De fato, até o dia de hoje são estudados os seus métodos e contribuições no campo da educação em muitos campus universitários do mundo, especialmente nos escritos de um dos seus líderes mais proeminentes, Nicolás Comenius.

Guerras e Perseguições:

Em 1507, seus perseguidores da igreja oficial conseguiram persuadir o rei da Boêmia de que o poder crescente dos Irmãos era uma ameaça. Este publicou então o decreto de Saint James, ordenando que todos eles se unissem à igreja oficial ou abandonassem o país. Como conseqüência, as suas reuniões foram fechadas, os seus livros queimados e eles encarcerados, exilados ou cruelmente martirizados.

Com o advento da Reforma, os irmãos entraram em contato com os líderes protestantes e os seus príncipes. Quando estourou a guerra entre católicos e protestantes, os nobres boêmios que pertenciam aos Irmãos Unidos decidiram apoiar o grupo protestante. As conseqüências foram, uma vez mais, desastrosas. Pois após serem derrotados na batalha de Mühlberg (1547), os nobres foram encarcerados e executados pelo rei da Boêmia, Ferdinand. Uma vez mais as suas posses foram confiscadas e as suas reuniões encerradas. Mas, além disso, ordenou-lhes que deixassem o país num prazo de seis meses.

Começou então uma maciça emigração, em que grandes caravanas de irmãos se dirigiram para a Polônia, e em seguida para a Alemanha procurando refúgio. Ali foram recebidos depois de muitos esforços e sofrimentos. No entanto a sua peregrinação ainda não tinha acabado. Conseguiram retornar ao seu país, mas, por quase 70 anos, a sua sorte variou de acordo com os vai-vêm das guerras entre protestantes e católicos, que devastaram a Europa por 30 anos. Mas naqueles anos realizaram a grande obra de traduzir a Bíblia das línguas originais para o seu idioma nativo, o tcheco (1579 a 1593). Esta tradução tem sido a base da Bíblia tcheca até hoje, e, além disso, estabeleceram o fundamento para o desenvolvimento da literatura tcheca.

A última batalha entre protestantes e católicos na Boêmia terminou no White Mountain (1620). A derrota protestante foi completa e como conseqüências 36.000 famílias de crentes foram novamente obrigadas a deixar a Boêmia. E isto implicou no fim da chamada 'religião Hussita' que desapareceu junto com a independência da Boêmia.

Um Testemunho Imperecível:

Não obstante, apesar de tudo, um pequeno remanescente sempre se manteve fiel, negando-se a participar das
Nicolas Ludwig Von Zinzendorf
(1700-1760)
guerras e tomar a espada. Neles sobreviveu o espírito e a visão original dos Irmãos. Estes viveram perseguidos, errantes e escondidos, em diferentes lugares da Europa central, inclusive em bosques distantes e escuros, por muitos anos. E depois de uma longa peregrinação e inexprimíveis sofrimentos, chegaram uma época depois a uma pequena aldeia na Morávia, onde o Conde Zinzendorf tinha construído uma cidade de refúgio para os irmãos perseguidos. E ali contribuíram para acender uma vez mais a chama do testemunho de Jesus Cristo, provendo a base do futuro movimento morávio, chegando a ser conhecido como maior evento de impacto missionário dentro da História da Igreja, com número de irmãos notável enviados á várias partes do mundo para a pregação e propagação do evangelho de Cristo. Dois destes irmãos ficaram conhecidos pelo ato de coragem, por se venderem como escravos e entrarem em um navio, para pregar o evangelho em terras desconhecidas em meio à uma tribo de canibais, e interpelados no momento da partida do navio, questionaram a eles, perguntando se eles tinham a consciência de que aquela poderia ser uma viagem sem volta; e eles responderam em alto e bom tom: "Que o Cordeiro receba a recompensa do seu sacrifício."No entanto esse é outro capítulo da história, que será narrado mais tarde.

Jan Amós Comnius (1592 - 1670)
Pai da Pedágogia
Possivelmente a melhor conclusão para esta história, que resume a visão e o testemunho que por longos anos levantaram os Irmãos Unidos, encontre-se nas proféticas palavras de Jan Comenius (1592-1670), referidas às duas grandes forças religiosas em conflito: "...Cada igreja reconhece a si mesmo como a verdadeira, ou ao menos, a mais pura, enquanto perseguem-se entre si com o ódio mais amargo. Nenhuma reconciliação se pode esperar entre elas, pois respondem à inimizade com a mais irreconciliável inimizade. A partir da Bíblia forjam os seus diferentes credos; estes são fortalezas e baluartes por trás das quais se entrincheiram e resistem a todos os ataques. Não diria que estas confissões de fé... são más em si mesmas. Mas se convertem, entretanto, naquilo que alimenta o fogo da inimizade...

O que se obtém com isto? Alguma vez uma disputa erudita alcançou êxito? Nunca. O número delas simplesmente cresceram... Os sacramentos, dados como símbolos da unidade, de amor e da nossa vida em Cristo, foram ocasião do mais amargo conflito, a causa do ódio mútuo, o centro do sectarismo...".
"Desta forma, a Cristandade se converteu em um labirinto. A fé foi dividida em milhares de pequenas partes e você é considerado um herege se não aceitar uma delas... O que isto nos ajudará? Somente, uma coisa é necessária: Retornar a Cristo, olhar para Cristo como o único Líder, e caminhar nas suas pisadas, deixando de lado todo outro caminho, até que alcancemos a meta, e cheguemos à unidade da fé (Ef. 4:13)... Assim que, saiba, OH Cristandade, qual é a única coisa necessária. Ou retornas para Cristo, ou vais para a perdição como o Anticristo. Se for sábia e desejas a vida, segue o Líder, Jesus Cristo".
"Mas vocês, cristãos, regozijem-se em sua exaltação,... escutem as palavras do Líder Celestial: "Vinde a Mim"... e respondam a uma voz: "Assim seja, vamos".

Os Valdenses
O Israel dos Alpes
Por Rodrigo Abarca

Durante toda a Idade Média, numerosos grupos de irmãos se separaram da Cristandade oficial para procurar uma forma de cristianismo mais puro e apegado à simplicidade evangélica. Já vimos o alto preço que deveriam pagar muitos deles por causa da sua fidelidade à Palavra de Deus. O caminho da fé foi regado com o sangue do seu martírio.
Mártires Valdenses na fogueira da Inquisição Católica

Na Europa ocidental, cátaros e albigenses cresciam, especialmente na França e Espanha. E nos vales alpinos do norte da Itália e no sul da Suíça, prosperaram por vários séculos um grupo de irmãos de características singularmente especiais a quem a história designou com o nome de Valdenses.

Suas Origens:

Embora estreitamente aparentados com os albigenses, a sua origem parece remontar-se a uma época anterior. A antiguidade dos Valdenses é testemunhada por várias fontes, tanto internas como externas ao movimento, e também por algumas características muito particulares de sua fé e práticas. O inquisidor Rainero, que morreu em 1259, escreveu: "Entre todas estas seitas... a dos leonistas (leia-se Valdenses).. foi a que por mais tempo tem existido, porque alguns dizem que tem perdurado desde os tempos de Silvestre (Papa em 314-335 DC), outros, do tempo dos apóstolos". Marco Aurelio Rorenco, pároco de São Roque em Turin, em seu reconto e história dos mesmos, escreveu que os Valdenses são tão antigos que não se pode precisar o tempo de origem. Além disso, os próprios Valdenses se consideravam muito antigos e originavam a sua fé dos tempos apostólicos.

Outra evidencia a favor da sua antigüidade é a sua relativa falta de antagonismo para a cristandade oficial, diferente de outros grupos (incluindo albigenses) que se separaram dela como uma reação contra os seus enganos. Os Valdenses se caracterizavam por uma atitude mais tolerante, pois estavam dispostos a reconhecer que havia muitos homens que caminharam e ainda caminhavam com Deus ali. Por isso, mais adiante e quando entraram em negociações com os Reformadores, mostraram-se dispostos a reconhecer o que tinha de bom dentro da igreja organizada, o qual estes últimos rejeitaram completamente.

O reformador suíço Guillermo Farell se lamentava, por exemplo, da falta de rigor e concordância com as doutrinas protestantes mais duras e anticatólicas, entre os Valdenses com quem entrou em contato. Em uma de suas cartas se queixa desta "característica" que ele atribuía ao declínio espiritual do movimento, sem perceber a longa história espiritual que existia atrás dela.

Na verdade, embora seja impossível precisar o seu início, é provável que fossem em seu núcleo essencial um remanescente que se separou da cristandade oficial rejeitando a união da igreja e o estado, depois da ascensão de Constantino em 311 DC (por ex: os novacianos). Alguns deles puderam ter emigrado para os remotos e isolados vales alpinos, onde conservaram intactas por muitos séculos a sua fé e pureza evangélicas, alheios a todas as controvérsias e lutas posteriores. Embora mais adiante tivesse estreita comunhão com outros grupos de irmãos perseguidos.

De fato, os numerosos irmãos perseguidos, conhecidos pelos diferentes nomes que lhes eram dados por seus perseguidores, chegaram, com o tempo, a constituir um testemunho unido e de vasto alcance, fora da cristandade organizada. Graças aos escritos que os Valdenses conseguiram perdurar apesar da perseguição. E hoje podemos saber que aqueles grupos de irmãos, unidos por estreitos laços de comunhão, não eram absolutamente hereges gnósticos ou maniqueus, tal como pretendiam os que os perseguia e matavam, mas sim verdadeiros crentes ortodoxos em sua fé e bíblicos em suas práticas. 

Assim o Papa Gregório IX declarava: "Nós excomungamos e anatematizamos a todos os hereges, cátaros, patarinos, Homens Pobres de Lion (Valdenses), arnaldistas... e outros, qualquer que seja o nome pelo qual são conhecidos, já que têm de fato diferentes rostos, mas estão unidos por suas caldas e se reúnem no mesmo ponto, levados por sua vaidade".

Também o inquisidor Davi de Augsburgo reconhecia o fato de que em princípio as seitas, que resistiam juntas na presença dos seus inimigos, "eram uma só seita".

Pedro de Valdo:

Estátua de Pedro Valdo
Um dos homens mais conhecidos e destacados entre eles foi Pedro de Valdo, um bem-sucedido comerciante e banqueiro de Lion que, depois de uma atenta leitura da Bíblia foi impactado profundamente pelas palavras do Senhor em Mateus 19:21, "Se quer ser perfeito, vai, vende tudo o que tem e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e depois vêm e segue-me". Em conseqüência, em 1173 deu uma boa quantidade da sua fortuna a sua esposa, repartiu o resto aos pobres e se entregou a uma vida itinerante de pregação. Outros companheiros se uniram a ele e viajaram juntos pregando do mesmo modo. Foram chamados 'Os Homens Pobres de Lion'. Em 1179 pediram ao Papa Alexandre III uma licença especial para continuar com os seus trabalhos, mas esta foi negada. Mais adiante foram inclusive excomungados.

Pedro de Valdo entrou em íntima relação com os Valdenses dos vales alpinos, e, possivelmente por essa razão, muitos historiadores o consideraram erroneamente o seu fundador, depois de observar a aparente coincidência entre o seu sobrenome 'Valdo' e o nome 'Valdenses'. Mas este suposto vem senão do costume de querer ver um fundador ou líder na origem de todo movimento espiritual. De fato, o nome 'Valdenses' parece derivar-se melhor do francês 'Vallois' (pessoas dos vales), que aparece em muitos manuscritos anteriores a Pedro de Valdo.

No entanto, De Valdo chegou a ser considerado como um dos seus apóstolos pelos mesmos Valdenses, a quem ajudou a sair do relativo isolamento em que se encontravam para lhes dar um notável impulso missionário. Realizou numerosas viagens e espalhou a fé em muitos países. Assim, diversas congregações de irmãos floresceram por toda a Europa ocidental, e se converteram em refúgio de outros irmãos perseguidos, tais como albigenses e cátaros.

Pedro de Valdo morreu provavelmente na Boêmia no ano de 1217, onde trabalhou ardentemente para semear a semente do Evangelho, que floresceria mais tarde entre os Irmãos Unidos e João Huss.

Fé e Práticas:

Os Valdenses reconheciam na Escritura a única autoridade final e definitiva para sua fé e práticas. Criam na justificação pela fé e rejeitavam as obras meritórias como fonte de salvação. Em 1212 um grupo de 500 Valdenses de várias nacionalidades foram detidos em Estrasburgo e queimados na fogueira pela Inquisição. 

Pedro Valdo pregando
Então, um dos seus pastores declarou pouco antes de morrer: "Nós somos pecadores, mas não é a nossa fé a que nos faz tais; tampouco somos culpados da blasfêmia pela qual somos acusados sem razão; mas esperamos o perdão dos nossos pecados, e isto sem a ajuda do homem, e tampouco através dos méritos ou de nossas obras".

Além da Escritura não sustentavam nenhum credo ou confissão de fé particular. Apesar disso, conseguiram conservar quase intactas a sua fé e as suas práticas ao longo de vários séculos; o qual prova de passagem que o melhor remédio contra a heresia e o engano é a espiritualidade apoiada em uma profunda fidelidade e apego à Escritura.

Tinham, em particular, a mais alta avaliação pelas palavras e obras do Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos. A sua meta principal era seguir a Cristo, guardando as suas palavras e imitando o seu exemplo. Não davam muita importância ao conhecimento meramente teológico e mental da verdade, pois insistiam que isto só podia ser entendido por meio da luz que o Espírito Santo concede ao coração daqueles que obedecem as palavras de Deus. Da mesma maneira, colocavam em um lugar central da sua vida os ensinos do Sermão do Monte, e as consideravam como uma regra de vida para todos os filhos de Deus.

Além disso, rejeitaram as disputas doutrinarias como infrutíferas, e aceitavam os ensinos dos homens de Deus de toda época e lugar, caso conformassem à Escritura. O seu maior interesse estava em uma espiritualidade real e prática.

O inquisidor Passau disse a respeito deles: "As pessoas podem conhecê-los por seus costumes e suas conversações. Ordenados e moderados evitam o orgulho nas vestes, que não são de tecidos baratos nem luxuosos. Não se metem em negócios, a fim de não verem-se expostos a mentir, a jurar nem enganar. Como obreiros vivem do trabalho das suas mãos. 

Os seus próprios mestres são tecelões ou sapateiros. Não acumulam riquezas e se contentam com o necessário. São castos, sobre tudo os lioneses, e moderados em suas comidas. Não frequentam os botequins nem os bailes, porque não amam essa classe de frivolidades. 

Procuram não zangar-se. Sempre trabalham e, no entanto, acham tempo para estudar e ensinar. São conhecidos também por suas conversações que são ao mesmo tempo sábias e discretas; fogem da maledicência e se abstêm de conversas vãs e zombadoras, assim como da mentira. Não juram e nem sequer dizem 'é verdade', ou 'certamente', porque para eles isso equivale a jurar".

Quanto à ordem da igreja, não tinham nenhuma classe de organização centralizada, nem hierarquia superior. As suas assembleias eram dirigidas por anciões ou presbíteros a quem chamava 'Barbas'. Celebravam juntos a Ceia do Senhor, sem excluir a nenhum crente dela.

Também reconheciam a existência de um ministério apostólico extra local e itinerante. Os apóstolos Valdenses viajavam continuamente entre as igrejas para ensinar, encorajar e ganhar novos convertidos. Não possuíam bens econômicos nem famílias, já que as suas vidas estavam em contínuo perigo e aflição. As suas necessidades eram supridas pelos irmãos, quem os tinha na maior estima e reconhecimento. Viajavam de dois em dois, sempre um mais velho com um mais jovem como aprendiz. Muitos tinham conhecimentos de medicina para ajudar os necessitados. Também havia entre eles homens altamente educados e eruditos. Freqüentemente as pessoas os chamavam 'Amigos de Deus' devido a sua profunda espiritualidade e simplicidade. Pedro de Valdo, como vimos, foi um deles.

Perseguições e Martírios:

Apesar do seu relativo e tranqüilo isolamento, as constantes atividades missionárias dos seus apóstolos atraíram finalmente para si a atenção e o ódio da cristandade organizada. Os numerosos santos perseguidos em outras partes encontravam refúgio em suas assembleias, que se tinham espalhado por vários países da Europa. Este fato muito em breve atraiu sobre eles o olhar implacável dos inquisidores.
Em 1192, alarmado pelo crescente número dos Valdenses na Espanha, o Rei Alfonso de Aragón emitiu um decreto contra eles nos seguintes termos: "Ordenamos a todo valdense que, já que estão excomungados da santa igreja, inimigos declarados deste reino, têm que abandoná-los, e igualmente a outros estados dos nossos domínios. 

Em virtude desta ordem, qualquer que a partir de hoje receber em sua casa os mencionados Valdenses, assistir os seus perniciosos discursos, dar-lhes mantimentos, atrairá por isso a indignação do Deus todo-poderoso e a nossa; os seus bens serão confiscados sem apelação, e será castigado como culpado do crime de lesa-majestade... Além disso, qualquer nobre ou plebeu que encontre dentro dos nossos estados a um destes miseráveis, saiba que se os ultrajar, maltratá-los e os perseguir, não fará com isto nada que não nos seja agradável". Muitos irmãos sofreram o martírio durante a perseguição que desencadeou a partir do decreto real.

Mais adiante, em 1380, um emissário da igreja oficial foi enviado para ocupar-se com eles nos vales de Piamonte. Durante os próximos 30 anos, 230 irmãos foram queimados na fogueira e seus bens repartidos entre os seus perseguidores. A perseguição se agravou em 1400 e, então, muitas mulheres e crianças procuraram refúgio nas altas montanhas. Ali a maior parte deles morreu de fome e frio. Em 1486 se emitiu uma carta pontifícia em oposição a eles e os vales foram invadidos por um exército de 8000 soldados de Archidiácono de Cremona, cujo objetivo era extirpar os hereges. Mas esta vez os pacíficos camponeses Valdenses tomaram as armas para defender-se, por isso o sangrento e desigual conflito se estendeu por quase 100 anos. A resistência dos irmãos foi então tão heroica, que receberam o nome de Israel dos Alpes'.

Quando começou a Reforma, os exércitos da igreja organizada aproveitaram para tomar vingança contra os Valdenses, e arrasaram literalmente várias das suas aldeias e povos. Em Provenza, no sul da França, floresciam 30 aldeias Valdenses que tinham começado a fazer contato com os líderes da Reforma. Inteirados, os seus inimigos convenceram mediante ardis e mentiras o rei da França, Francisco I. Pressionado pelo Cardeal Tournon, ordenou que todos os Valdenses fossem exterminados (19 de janeiro de 1545). 

Foi enviado um exército contra eles, que, depois de sete semanas de matanças, terminou com a vida de cerca de 3 a 4 mil homens e mulheres. A brutalidade e o horror se estenderam pela região. 22 aldeias ficaram totalmente destruídas. Os poucos sobreviventes foram enviados para servir de remadores nas galeras por toda a vida e apenas um reduzido número conseguiu escapar para a Suíça.

Considerações Finais:

Apesar de tudo, os Valdenses, diferente dos outros grupos perseguidos, sobreviveram. Nos dias da Reforma muitos passaram a formar parte das filas protestantes, enquanto que outros se uniram a assim chamada Reforma Radical dos Anabatistas. Junto com eles sobreviveram importantes escritos que nos ajudam a entender a fé daqueles irmãos cujos testemunhos foram calados pelo martírio, tais como os cátaros e albigenses, com quem os Valdenses se encontravam estreitamente unidos. E por eles aprendemos que um remanescente fiel lutou, sofreu e morreu por Cristo durante vários séculos de escuridão e apostasia, quando parecia que a fé bíblica tinha desaparecido da terra. E agora um quadro inteiramente diferente surge diante dos nossos olhos. Não se tratavam de hereges, mas sim de verdadeiros irmãos e irmãs em Cristo.

Aqui e lá, em todas as partes da Europa onde homens e mulheres fiéis buscavam o Senhor, a luz da sua palavra resplandecia e um testemunho se levantava no meio da escuridão. Mas o inimigo que enfrentavam era formidável, ardiloso e cruel. As suas armas preferidas eram a difamação e o martírio. 

Diante delas, todos os seus esforços pareciam destinados ao fracasso e a aniquilação. As fogueiras se multiplicavam e os horrores pareciam não ter fim. No entanto, a sua fé sobreviveu e prevaleceu através de toda aquela imensa maré de malignidade que ameaçou inundá-los por completo. E a luz alçou no final daquela época de trevas ainda invicta e resplandecente. Desta maneira, junto a albigenses e cátaros e outros cujo testemunho foi silenciado e apagado da história, os Valdenses mantiveram erguido a chama e a fizeram chegar até os nossos dias, para falar por todos os irmãos cujo invencível testemunho de fé e amor por Cristo creram ter feito calar para sempre; e nos dizer que em todos eles brilhou de maneira clara e singular a luz invencível de Cristo e o seu Evangelho eterno, no meio da adversidade mais implacável. Por isso, o seu legado espiritual resulta imperecível. "Ouvi uma voz do céu que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansarão dos seus trabalhos, porque as suas obras com eles seguem" (Ap. 14:13).

Albigenses e Cátaros
Testemunhas na hora mais obscura da Fé
Por Rodrigo Abarca




História e Ficção:

Possivelmente nenhum grupo de crentes tenha sido objeto de tanta especulação como os albigenses ou cátaros. Na atualidade, com o ressurgimento do esoterismo, tem sido escrito numerosos livros e novelas onde pretendem 'resgatar' o verdadeiro legado dos cátaros e os seus ensinos. E, seguindo as várias e duvidosas declarações dos seus perseguidores e inquisidores, os associam em forma extemporânea com os gnósticos do princípio da era cristã (Séculos II e III).

Existem, inclusive, documentos onde os inquisidores atribuem aos cátaros confissões do tipo gnóstico copiadas letra por letra do livro "Contra Heresias", escrito pelo Irineu de Lyon no final do século II, sem incomodar-se em trocar ou adaptar os seus parágrafos.

Por esta razão, diante da evidente falta de objetividade e a inegável parcialidade dos documentos que sobreviveram aos cátaros, muitos historiadores seculares se abstêm de promulgar qualquer juízo histórico e preferem manter silêncio. Outros, no entanto, especulam sem apoio histórico, e criam as mais fantásticas teorias sobre a sua origem e crenças.

No entanto, quando estudamos em paralelo a história de bogomilos, cátaros e valdenses, descobrimos que, de fato, existia uma fluida e constante comunhão entre estes grupos, o qual não poderia ter ocorrido se alguns deles tivessem sido gnósticos ou maniqueus. Dos valdenses se preservaram numerosos documentos que provam, sem nenhuma dúvida, o caráter evangélico e escritural das suas crenças. E é um fato que, para os inquisidores da sua época, os valdenses, cátaros e albigenses, eram uma mesma coisa. Distintos nomes dados a idênticos irmãos, dependendo do lugar e da ocasião, pois, devemos lembrar que eles recusavam tomar qualquer nome sobre si, com exceção de "cristãos" ou "irmãos". 

Com certeza, é possível identificar a persistência de algumas heresias gnósticas, disseminadas aqui e lá em algumas seitas medievais, as que, no entanto, não podem ser associadas sem mais nem menos aos cátaros e albigenses. Além disso, devemos lembrar que no período apostólico e pós-apostólico muitas heresias gnósticas se desenvolveram à beira das igrejas de Cristo, tal como o mesmo apóstolo João advertiu em sua Primeira Carta.

A Causa da Heresia:

A presença do engano e o engano nunca estão muito longe de qualquer desenvolvimento verdadeiramente espiritual. Isto não nos deve assombrar. As igrejas de Cristo, ao colocar-se sob a autoridade da Escritura e do Espírito Santo, evitando qualquer uniformidade e organização exterior, dependem exclusivamente do Senhor para o seu êxito e continuidade. Não existe entre elas nenhum credo exterior, rígido e uniforme, vigiado e defendido por alguma instituição humana. Pois sua persistência diante de Deus não pode depender da sua adesão a uma ortodoxia fria e morta, mas sim do contato vivo com a sua Cabeça, que é Cristo. Só esse contato pode livrá-las do engano e da deformação.
As heresias gnósticas surgiram no estreito contato com a fé bíblica, pois formam parte da estratégia de Satanás para confundir e apartar à igreja de Cristo, sua cabeça. De fato, em Colossos já tinham aparecido os primeiros sinais, ainda nos dias do apóstolo Paulo. E o mesmo se pode constatar nas cartas às sete igrejas de Apocalipse. No entanto, a resposta de Paulo e João não foi nem remotamente um chamado à perseguição, a difamação e a tortura dos hereges, como ocorreria mais tarde com a cristandade organizada, mas sim uma exposição mais ampla e aprofundada de Cristo, a Verdade, com claridade e autoridade espiritual. Só isto é suficiente para desbaratar os planos do diabo e salvar os irmãos da confusão e do engano. E, obviamente, nada mais pode ser.
Por isso, ao longo da história dos irmãos esquecidos, encontraremos sempre, lado a lado com a fé bíblica, sempre distinta, algumas crenças heréticas e distorcidas. Este fato, unido à ilimitada ambição da cristandade organizada por ser considerada a única e verdadeira "igreja de Cristo", que a levou a perseguir infatigavelmente os cristãos dissidentes que não reconheciam a sua autoridade 'oficial', deformando e destruindo o registro quase completo de sua passagem pela história, teve êxito em fazer de muitos daqueles valentes irmãos, "hereges", ainda aos olhos de outros sinceros irmãos que vieram depois. Esta é a trágica história daqueles mártires que corajosamente levantaram o estandarte de Cristo na hora mais obscura da fé.

Indagando nas Origens:

A origem dos cátaros e albigenses permanecem ainda em mistério. O mais provável é que fossem fruto da conjunção de vários fatores. Em primeiro lugar, existiam disseminados pela Europa ocidental pequenos grupos de crentes que se separaram da cristandade organizada no tempo de Constantino, entre os quais os mais conhecidos foram os novacianos, quem também foram conhecidos com o nome de cátaros ou 'puros' (gr. cataroi). 

Por outro lado, durante o início da Idade Média, a corrupção generalizada de uma grande parte da cristandade levou irmãos sinceros a apartar-se dos seus males e abusos. Entre esses irmãos se destacaram homens de grande zelo espiritual, que denunciaram abertamente os males da cristandade e ganharam um considerável número de seguidores para uma fé mais bíblica e singela, entre os quais se destacam Pedro de Bruys e Henrique de Cluny. Além disso, existiu uma contínua corrente migratória de irmãos que eram perseguidos no oriente (paulicianos e bogomilos), que, ao chegarem ao ocidente entraram em contato com as igrejas dos cátaros, albigenses e valdenses.

Todos estes fatores ajudam a explicar o surgimento de uma poderosa corrente espiritual durante a Alta Idade Média (Séculos X ao XV), conformada por numerosos grupos de crentes que se apartaram decididamente do cristianismo oficial do seu tempo. Foram conhecidos por muitos nomes: cátaros, albigenses, valdenses, petrobrusianos, patarinos, etc. E, embora existisse entre todos eles uma estreita comunhão e inter-relação, o nome de cátaros e albigenses se aplicaram melhor aos grupos de irmãos que floresceram no sul da França e norte da Espanha. O nome valdenses se aplicou em especial àqueles irmãos que se desenvolveram nos vales do norte da Itália e Suíça, e deles queríamos nos ocupar em um artigo posterior.

O nome 'cátaro', aplicado aos irmãos, parece derivar do costume dos seus pregadores itinerantes de venderem todas as suas propriedades e se fazerem assim "perfeitos" para seguir o Senhor e pregar o evangelho, tomando literalmente o conselho do Senhor (Mateus 19:21). Não obstante, este não era um costume generalizado entre os irmãos, pois a maioria deles permaneciam em seus trabalhos, ofícios e famílias. Por outro lado, o termo 'albigense' apareceu logo em meados do século XII, na cidade francesa de Albi, onde um grupo de irmãos foram queimados na fogueira sob a acusação de heresia maniqueista (embora isto não pôde ser provado). A partir de então, acostumaram a associar os irmãos do sul da França com a 'heresia de Albi', e dali o nome, 'albigenses'.

Neste artigo vamos nos enfocar especialmente naqueles irmãos que foram conhecidos como cátaros e albigenses. Entre as pessoas comuns foram chamados normalmente 'os Homens Bons', em reconhecimento ao seu caráter santo e espiritual, que contrastava notavelmente com o clero da cristandade da sua época.

Líderes Inspirados:

Já mencionamos que entre os fatores que explicam o surgimento destas companhias de irmãos está o ministério de alguns notáveis líderes espirituais, como Pedro de Bruys e Henrique de Cluny.
O primeiro, Pedro de Bruys, viajou infatigavelmente por mais de vinte anos, percorrendo diversas províncias da França: em Delfinado, Provença, Languedoque e Gasconia. Multidões de pessoas assistiam as suas pregações em que denunciava abertamente o uso de imagens, especialmente da cruz, a veneração a Maria, os sacramentos, e o batismo de meninos, como costumes contrários à Escritura. Para escutá-lo, as pessoas deixavam os serviços religiosos e se reuniam em qualquer ponto onde ele estivesse. Como também não reconhecia a autoridade da Igreja organizada, foi açoitado e finalmente detido em 1116 DC. Foi queimado publicamente na praça de Saint Gilles nesse mesmo ano. Não obstante, os seus seguidores continuaram com a sua obra e com o tempo se uniram ao resto dos irmãos perseguidos.

Henrique de Cluny continuou com a obra de Pedro de Bruys, de quem foi discípulo. Este era monge e diácono do famoso monastério de Cluny. Possuía uma grande capacidade de oratória e um aspecto físico imponente. Mas era, além disso, um homem extraordinariamente devoto e inflamado de zelo espiritual. Suas pregações atraíam milhares de pessoas, e produziam centenas de conversões, entre elas, as de alguns reconhecidos pecadores, que mudavam radicalmente as suas vidas. O avivamento que ele ajudou a acender se estendeu rapidamente por todo o sul até o meridional da França.

Os líderes da igreja organizada se encontravam intimidados e até aterrorizados diante do poder da sua pregação, e não se atreviam a fazer nada contra. Foi tão grande o seu impacto nessas regiões que grande parte dos templos e monastérios ficaram abandonados.

Finalmente, Bernardo de Clarvaux, o homem mais poderoso da Europa, foi chamado para detê-lo. Este era um homem de caráter santo e devoto, cujos hinos em honra a Cristo são lembrados até hoje. No entanto, neste assunto atuou com todo o zelo da cristandade oficial, pois considerava Henrique o pior dos hereges, um demônio saído do próprio inferno. E com respeito aos irmãos, quem se negava a reconhecer a sua identidade com homem algum, inclusive com Henrique de Cluny ou Pedro de Bruys, queixava-se: "Inquiram deles o nome do autor da sua seita e não a atribuirão a ninguém. Que heresia há, que, entre os homens não tenha o seu próprio heresiarca?... Mas, por que sobrenome ou por qual título arrolam eles a estes hereges? Porque a sua heresia não se derivou do homem, nem tampouco a receberam de um homem". Sua conclusão foi que, consequentemente, tinham recebido o seu ensino dos demônios!

Henrique se viu forçado a fugir de Bernardo, e continuou com o seu infatigável trabalho, até que foi finalmente preso e condenado a um destino desconhecido, talvez ser emparedado vivo, ou a pena de morte, em Toulouse. Os irmãos, não obstante, continuaram adiante com o seu valente testemunho e passaram a formar parte daqueles grupos de irmãos perseguidos, conhecidos por seus inimigos como cátaros e albigenses.

A Cruzada Contra os Albigenses:

O importante despertar espiritual daqueles anos entre os irmãos, teve o seu epicentro na região conhecida como o Meridional da França, especialmente em Languedoque. Ali multidões de homens e mulheres de toda classe e condição, incluindo nobres e bispos do clero, somaram-se às filas dos irmãos, e as suas congregações cresceram em um número alarmante aos olhos da hierarquia da cristandade. Em 1167 foi realizada uma conferência de mestres que congregou irmãos de todas as partes da Europa, inclusive de Constantinopla. Ali estavam os paulicianos, cátaros, albigenses, valdenses, bogomiles, reunidos simplesmente como irmãos, sem aceitar nenhum dos apelidos que os seus caluniadores lhes colocavam. Relataram do avanço da obra em lugares tão distantes como a Romênia, Bulgária e Dalmácia. E este fato nos ajuda a visualizar a amplitude e alcance do despertar espiritual que eles protagonizaram naqueles anos.

Finalmente, o Papa Inocêncio III decidiu acabar por completo com os 'hereges', depois de fracassar em suas tentativas de convencer, mediante os seus legados, aos albigenses, pois estes se negaram a reconhecer outra autoridade além das Escrituras, e à cristandade organizada como a "verdadeira noiva de Cristo". Tentaram, então, convencer o conde de Provença e outros governadores das províncias do sul da França para que o apoiassem em seus intentos de aniquilação dos "hereges". No entanto, frente à resistência de suas pretensões, convocou uma cruzada de extermínio contra os albigenses e as províncias do Meriodional francês. Nessa região, devido à influência dos irmãos, desenvolveu-se a civilização mais rica e próspera da Europa.

Centenas de milhares se uniram à cruzada convocada pelo Papa, atraídos pelas riquezas que ficariam a mercê da pilhagem e da devastação. Liderada pelo terrível Simón de Monfort, a cruzada contra os albigenses devastou o sul da França até reduzi-lo a mais completa desolação. Um após o outro, os pacíficos povos do sul foram tomados e todos os seus habitantes passados ao fio da espada. Em Minerva, Monfort encontrou 140 irmãos, que negaram a abnegar-se de sua fé, por isso foram entregues às chamas de uma grande fogueira que ele mesmo preparou no centro do povo. Em Beziers, vendo rodeada a cidade e compreendendo que toda resistência seria inútil, o conde Rogelio, junto com o bispo, saiu para pedir clemência para as mulheres e meninos e ainda para aqueles que não eram 'hereges', pois nem todos nela eram albigenses. A resposta de Simón de Monfort foi: "Matem a todos. Deus reconhecerá os seus".

A sangrenta cruzada se estendeu por cerca de vinte anos, até devastar totalmente o país. Em 1211 caiu Albi e em 1221, Toulouse e Avinhon. Seus habitantes tiveram a mesma sorte de todos os outros, e foram passados ao fio da espada.

Centenas de milhares de irmãos morreram, pela guerra ou queimados na fogueira. No entanto, os poucos que conseguiram sobreviver, fugiram para diferentes países levando consigo a sua fé e testemunho. Não obstante, a cristandade oficial não retrocedeu em seu esforço por destruir 'a heresia albigense'. No Concílio de Toulouse, em 1229 foi criada a Inquisição, com o fim de continuar a perseguição em cada recanto da Europa. E a Inquisição completou a obra inconclusa da cruzada contra as províncias do Meridional francês. Deste modo, a civilização de Provença foi extinta por completo.

Apesar de tudo, a fé dos irmãos não morreu. Em qualquer lugar que fossem, tornaram a levantar o testemunho de Jesus Cristo. Por toda a Europa, numerosos irmãos saíam da cristandade organizada, e aqui e acolá tornavam a aparecer, para em seguida ocultar-se, durante os terríveis séculos em que a Inquisição exerceu o seu império. Até que por fim, com o advento da Reforma, saíram novamente à luz, e se encontravam em centenas de milhares, dispostos a escrever um novo capítulo de sua heróica história, encontrando-se unidos à própria Reforma, ou tomando parte da reforma mais radical, com o nome de anabatistas.