Os Paulicianos
fiéis à fé original
por Rodrigo Abarca
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| Massacre dos Paulicianos 843 d.C/844 d.C |
A
história das igrejas que se separaram da corrente principal do cristianismo
organizado, tem na Armênia e na Ásia Menor os seus mais valentes representantes
nos assim chamados Paulicianos. Perseguidos durante séculos até seu quase
completo extermínio, o pouco que sabemos deles nos chegou através do testemunho
prejulgado e inclusive mal intencionado de seus perseguidores, e um livro
descrito por eles, recentemente encontrado.
Como
vimos anteriormente, a solitária existência de alguma classe de cristianismo
verdadeiro resultou sempre intolerável para a cristandade organizada, pois o
contraste entre esta e a pureza espiritual daqueles grupos de crentes
perseguidos, manifestava a sua ruína espiritual e moral. E também colocavam em
interdição suas pretensões de ser a única igreja verdadeira. Por isso, não só
se dedicou a perseguir e matar todos os crentes que discordavam de suas
práticas e não se submetiam ao seu domínio, mas também a deturpar, envilecer e
destruir sua memória com perversas e absurdas acusações de heresia e maldade.
Por certo, detrás de tanta hostilidade não descobrimos outra coisa senão o
mesmo dragão de Apocalipse 12, cuja ira contra os santos que retêm o testemunho
de Jesus Cristo manifesta as mais cruéis perseguições contra eles.
Este é o
contexto em que se desenvolve a história dos assim chamados Paulicianos, que
floresceu com maior intensidade entre os séculos VII e IX D.C., nas regiões
orientais da Armênia, no monte Ararat e ainda mais à frente do rio Eufrates,
embora a sua origem, de acordo com alguns historiadores, pode ser esboçado
inclusive até o período apostólico. Eles mesmos afirmavam ser parte da santa
igreja apostólica e universal de Jesus Cristo, e só se chamavam a si mesmos
cristãos ou irmãos e diziam descender das antigas igrejas apostólicas.
Se isto é
ou não verdade em um sentido temporário, tem menos importância que sua
veracidade espiritual. Pois estes irmãos procuraram manter-se fielmente dentro
do ensino apostólico do Novo Testamento. De fato, devido a seu grande amor e
respeito pelas Escrituras, e em especial pelos escritos do apóstolo Paulo,
foram provavelmente chamados Paulicianos por seus perseguidores. E por esta
causa, encontraram-se em conflito com a maior parte da cristandade oficial de
seu tempo.
A partir
da Escritura, resistiam firmemente a união da igreja e o estado, e viam nela a
fonte de muitos dos males da cristandade. Igualmente, opunham-se também à
adoração de imagens, o culto a Maria, o batismo de crianças, e a autoridade
eclesiástica centralizada e hierarquizada do sistema episcopal. Suas igrejas
eram dirigidas por anciões de provado caráter espiritual, e não possuíam
nenhuma hierarquia de controle centralizado. Existiam também mestres
itinerantes que viajavam extensamente entre as igrejas para instruí-las e
fortalecê-las. Homens de caráter apostólico cujos nomes ainda é lembrado devido
à grande influência que exerceram nos seus dias.
A
comunhão destas igrejas era de caráter eminentemente espiritual e não estava
apoiada em um credo doutrinal bem definido e admitido por todas. Não estavam
tão interessadas no rigor doutrinal, mas sim no amor, na comunhão e
na experiência cristã genuína e prática. Bem se poderia dizer que eram cristãos
pré-dogmáticos, no sentido de que se desenvolveram alheios a todas as
controvérsias doutrinais que agitaram amargamente as águas da cristandade
organizada. Por isso, não cabe esperar deles definições dogmáticas precisas e
acabadas, a não ser um inconfundível sabor evangélico e bíblico nos poucos
escritos que sobreviveram deles.
Entretanto,
isto se encontra há anos luz das acusações de heresia que receberam de seus
perseguidores. De fato, debaixo dessa óptica dogmática e intransigente, também
os grandes pais da igreja antiga, que tanto trabalharam pelo desenvolvimento do
dogma, podem ser suspeitos de heresia ao ser confrontados extemporaneamente com
os credos de uma cristandade posterior a seu tempo. Se os credos tiverem algum
valor, derivam de sua fidelidade à Escritura, e igualmente, não têm a
autoridade final desta última. São como sinais no caminho que nos indicam os
caminhos que não devemos tomar. Algo muito distinto é fazer deles lanças e
espadas afiadas para perseguir, acusar e condenar a outros crentes, tal como
tragicamente ocorreu na história da cristandade.
Por
certo, como já se viu em outros casos, a acusação principal contra eles foi a
de maniqueísmo, pois esta acusação, uma vez provada, sofria a pena de morte na
lei romana desse tempo. Não obstante, conforme constam-nos mesmos testemunhos
de seus executores, eles sempre resistiram essa acusação como uma calúnia, e se
declararam fiéis discípulos de Cristo. Além disso, isto é muito mais coerente
com o grande amor e fidelidade que professavam fazer da Escritura a única fonte
de autoridade, o qual resulta totalmente incompatível com sua suposta adesão ao
maniqueísmo.
Finalmente, um de seus poucos escritos que sobreviveram à destruição, chamado A Chave da Verdade não mostra nenhum vestígio de maniqueísmo em seu conteúdo, mas sim uma fé essencialmente bíblica.
Embora não conhecemos o nome do autor do referido livro, sabemos sim que houve entre eles alguns proeminentes ministros da Palavra, como já mencionamos que derramaram suas vidas por causa do Senhor Jesus Cristo, cuja vida e testemunho merecem ser recordados.
Constantino
Silvano:
Como
temos dito, a história deste grupo de irmãos começa a ser conhecida a partir do
século VII. Nesse tempo, perto do ano 653 D.C., um homem chamado Constantino
recebeu em sua casa um viajante armênio, que por gratidão lhe deixou um valioso
presente: os manuscritos dos quatro evangelhos e as epístolas paulinas. De
fato, muitos quiseram ver em Constantino o fundador dos Paulicianos, mas eles
sempre alegaram uma origem muito mais antiga. Enquanto lia aqueles escritos, a
luz entrou em seu coração e se converteu em uma valente testemunha de
Cristo.
Muito em
breve, um grupo de crentes se reunia com ele para estudar as Escrituras fora da
tutela da igreja organizada. Constantino foi logo recebido entre os irmãos como
um dotado mestre e viajou extensamente pregando o evangelho e ensinando nas
igrejas. Trocou seu nome pelo de Silvano, devido a sua admiração pelo apóstolo
Paulo; estabeleceu seu lar na Kibossa e dali viajou para o leste seguindo o
curso do rio Eufrates e para o oeste, através da Ásia Menor. Seu ministério se
estendeu por mais de 30 anos.
Finalmente,
devido a seu extenso trabalho e influência, o imperador romano do oriente
(Bizancio) emitiu um decreto contra ele. No ano 684 foi capturado por um
oficial do império chamado Simeón, e foi apedrejado até morrer. Entretanto,
Simeón ficou tão impressionado com o que viu e escutou durante a detenção e a
execução de Constantino Silvano, que, depois de sua volta a corte de Bizancio,
não pôde encontrar paz nem tranqüilidade para a sua alma. Finalmente,
depois de dois anos de luta interior, decidiu abandonar tudo e retornar ao
lugar onde tinha morrido Constantino. Ali se entregou ao Senhor, foi batizado,
e continuou a obra que Constantino tinha realizado. Rapidamente se uniu ao
exército dos mártires, pois também foi capturado e queimado publicamente junto
a muitos outros irmãos. Não obstante, isto não deteve o resto dos crentes, e
sua obra continuou expandindo-se.
Sergio:
Depois de
Constantino Silvano, outro homem de considerável influencia entre os irmãos foi
Sergio, quem exerceu seu ministério entre os anos 800 aos 834. Também se
converteu ao Senhor após ler atentamente a Escritura, particularmente os
evangelhos. A partir dali, começou um extenso ministério por cartas, além de
suas viagens. Ricas cartas circularam com grande autoridade entre as
igrejas e ajudaram a curar as divisões que estavam surgindo entre elas. Viajou
extensamente do leste ao oeste, até que, conforme nos diz: meus joelhos
estiveram fatigados. Embora sempre trabalhou como carpinteiro, serviu a
inumeráveis irmãos no ministério da palavra por 34 anos, visitando praticamente
todas as regiões das terras altas da Ásia Central. Sua vida acabou sob o machado
do verdugo imperial no ano 834 D.C.
A luta
contra a idolatria:
Uma das
maiores batalha entre os irmãos e a igreja organizada foi travada em torno do
assunto das imagens. Diferentes imperadores bizantinos se declararam
sucessivamente a favor ou contrários ao uso de imagens. Como os irmãos
resistiam abertamente o uso e a veneração destas, sua situação também flutuava
de acordo com a posição que tomava o imperador da vez. Sob o reinado de Leão
III (660-740 D.C.), quem publicou um decreto imperial contra as imagens, foram
protegidos pelo imperador, e lhes permitiu exercer sua fé sem perseguições.
Inclusive, alguns deles foram deslocados pelo mesmo filho do imperador até os
Bálcãs, onde iniciaram uma extensa e frutífera obra.
Não
obstante, esta política foi variando com os seguintes imperadores. A morte de
Teófilo (842 d. do C.), que se opunha às imagens, subiu ao trono a imperatriz
Teodora, ardente defensora destas, e quem iniciou a mais terrível e sangrenta
de todas as perseguições contra os paulicianos. Sob suas ordens foram
decapitados, afogados e queimados milhares de homens, mulheres e meninos.
Calcula-se que durante esse tempo (842-867 d. do C.) perto de 100.000 irmãos
perderam a vida.
As
terríveis perseguições e torturas que tiveram que suportar inclinaram,
infelizmente, alguns irmãos a tomar as armas e unir-se aos muçulmanos para
lutar contra o império que cruelmente os perseguia. Este fato marcou o começo
da decadência espiritual entre eles. Pois toda vez que, na história, os crentes
tomaram a espada para defender-se, colheram ruína e destruição. A advertência do
Senhor a Pedro é determinante: Torna sua espada em seu lugar; porque todos os
que tomam a espada, pela espada também perecerão.
Apesar de
tudo, devemos recomendar a fidelidade desses irmãos, conhecidos como
paulicianos, quem perto de 300 anos mantiveram no alto o estandarte da fé e a
pureza evangélica, no meio das mais cruéis difamações e perseguições.
Resistiram valentemente e pacificamente todos os esforços que, ao longo desses
anos, foi feito para destruí-los.
Embora
nos séculos posteriores, quando sua condição espiritual tinha declinado, alguns
tomaram o caminho da luta armada contra o império, muitos deles continuaram
fiéis e se espalharam para o oeste, levando consigo sua mensagem de
simplicidade e pureza evangélica, como fiéis seguidores de Cristo. Ali, no
ocidente, retornamos a encontrar com o nome de Bogomiles, ou amigos de Deus,
dispostos a escrever um novo capítulo de heroísmo e fé.
A chave
da verdade:
Uma
última palavra deve ser dita sobre o único livro importante que sobreviveu dos
paulicianos, chamado A Chave da Verdade. Foi descoberto no final do século 19.
Trata-se de uma série de conselhos, escritos para as igrejas por um autor
desconhecido. Embora seus ensinos não devem ser tomadas como um credo
dogmático, são, em geral, uma clara exposição de sua fé e prática. Nelas há um
inconfundível sabor evangélico. Resistem ao batismo de crianças e declara que
estes devem ser criados por seus pais na fé e na piedade segundo o conselho dos
anciões da igreja. Isto deve ser acompanhado por orações e a leitura da
Escritura.
Também,
ao falar sobre a ordenação de anciões, declara que estes devem ser de perfeita
sabedoria, amor, prudência, gentileza, humildade, coragem e eloqüência. Devia
perguntar-lhes se estavam dispostos a beber do cálice do Senhor e ser batizados
com o seu batismo, e sua resposta devia ser uma clara demonstração dos perigos
que estes homens deviam enfrentar por causa do Senhor e do seu rebanho: Tomo
sobre mim os açoites, prisões, torturas, opróbrios, cruzes, aflições e
tribulações, e toda tentação do mundo, que nosso Senhor e Intercessor da igreja
apostólica e universal tomou sobre si mesmo, aceitando-os com amor. Também eu,
um indigno servo do Jesus Cristo, com grande amor e imediata vontade, tomo
sobre mim tudo isto, até a hora de minha morte.
Estas
palavras demonstram o valente espírito de fé com que estes homens e mulheres se
entregavam ao Senhor Jesus Cristo, conscientes de que podiam selar seu
testemunho com a coroa do martírio, tal como na verdade ocorreu com centenas de
milhares deles.
Este
livro retira também qualquer dúvida sobre seu suposto gnosticismo ou
maniqueísmo. Nenhum sinal dessas heresias aparece nele. Possivelmente a única passagem
controvertida é o que descreve o batismo do Senhor, onde diz que nesse ato, aos
30 anos de idade, Nosso Senhor recebeu o senhorio, o sumo sacerdócio, e o
reino... e foi cheio da divindade. Estas afirmações não parecem negar a
divindade do Senhor antes de seu batismo, mas sim melhor enfatizar que a partir
de então, começou a manifestar esses atributos divinos, que até então
permaneceram escondidos. No restante, a passagem não afirma nada mais a
respeito, já que sua intenção não é teológica, mas sim prática. Seu propósito
parece ser a fundamentação do batismo em pessoas conscientes de seus atos, em
oposição ao batismo de crianças.
Os assim
chamados paulicianos representavam uma fé mais prática que especulativa, mais
bíblica que dogmática, que se desenvolveu fora das definições e controvérsias
dogmáticas da cristandade organizada de seu tempo. Por isso, seu testemunho nos
fala ao contrário de um cristianismo mais antigo e original que procurou
manter-se ardentemente fiel aos ensinos apostólicos sobre Cristo e sua igreja,
contra tudo e apesar de tudo, até tingir-se por completo com o sangue de suas
mártires.

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