Bogomilos
ou "Amigos de Deus"
Por Rodrigo Abarca
Durante as severas e sistemáticas
perseguições que os Paulicianos sofreram nas mãos do Império Bizantino, vários
grupos, como se destacou em nosso artigo anterior, deslocaram-se para o
ocidente e fixaram suas residências nos Bálcãs. As sementes daqueles sofridos
mártires germinaram novamente em território europeu, onde foram conhecidos com
o nome de Bogomilos ou Tomraks, que em idioma eslavo quer dizer 'Amigos de
Deus'.
A primeira grande migração aconteceu sob o
patrocínio do imperador Constantino V, inimigo das imagens, quem deslocou
alguns deles até a Trácia. Depois, em meados do século X, outro imperador, Juan
Zimisces, quem libertou a Bulgária do domínio russo, conduziu uma segunda
grande migração de irmãos para os recém anexados territórios. Ali esses novos
imigrantes da Ásia Menor se expandiram rapidamente e fundaram numerosas igrejas
que procuravam ater-se na fé bíblica e nas práticas simples do Novo Testamento.
E no ocidente, entraram em contato com outros irmãos de similares
características, tais como cátaros, valdenses e albigenses.
Piores que demônios:
As igrejas que os "Bogomilos"
fundaram na Europa central foram objeto de intensa perseguição tanto do império
Bizantino como da Cristandade Ocidental. As comuns acusações de heresia (o já
sabido maniqueísmo), malignidade e depravação moral não se fizeram esperar. Um
escritor do século X, chamado Eutimio, disse o seguinte: "Eles (os
Bogomilos) convidam àqueles que ouvem as suas doutrinas a guardarem os
mandamentos do evangelho, a ser mansos e humildes, e a mostrar amor fraternal.
Assim, seduzem os homens ensinando-lhes coisas boas e doutrinas úteis, mas os
envenenam gradualmente e os arrastam à perdição". Cosmas, um presbítero da
igreja organizada búlgara, disse assim: "Mais horríveis e piores do que
demônios... Vocês podem encontrar hereges calados e pacíficos como cordeiros...
pálidos por seus jejuns hipócritas, que não falam, nem riem muito". E,
outra vez "quando os homens vêem a sua conduta modesta, pensam que as suas
crenças têm que ser verdadeiras. Aproximam-se, em consequência disso, e
consultam-lhes sobre a salvação das suas almas. Mas eles, semelhantes a lobos
que engolem um cordeiro com uma bocada, inclinam a sua cabeça, suspiram, e
respondem cheios de humildade, e se colocam a si mesmos na posição de conhecer
o que foi ordenado dos céus".
Estas acusações de seus perseguidores e
outras semelhantes recordam-nos as palavras do Senhor: "Bem-aventurados
sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal
contra vós por minha causa" (Mt. 5:11). Tampouco os Bogomilos escaparam à
sorte dos irmãos que levantaram o testemunho antes deles. O descrédito, a
difamação e o martírio por causa de Jesus Cristo os seguiram por onde quer que
fossem.
Uma opinião mais
ponderada:
Entretanto, outras vozes, mais objetivas e
sóbrias se levantaram para falar deles. Gregório de Narek, um dos assim
chamados "pais da igreja", diz que não podia acusá-los de vidas
imorais, mas sim de liberdade de pensamento e desconhecimento da autoridade:
"A partir de uma consideração negativa a respeito da igreja, esta seita
tomou uma linha positiva e começou a investigar o mesmo fundamento, a Santa
Escritura, procurando ali ensinos puros e sã direção para a vida moral".
Deste modo, até com as vozes dos seus
caluniadores, chega-nos o eco da sua vida e testemunho evangélico, em meio de
uma cristandade hostil e apóstata. Era precisamente esse testemunho superior de
vida e conduta, que os seus inimigos caracterizavam de "hipócrita", o
que atraía tantas pessoas para as suas singelas igrejas, pois viam e
encontravam neles uma espiritualidade muito mais genuína.
Da mesma maneira que os seus antecessores, os
Paulicianos, esses irmãos se reuniam em singelas assembleias presididas por
anciões de caráter provado, recusavam o culto às imagens e a Maria, e a
doutrina da transubstanciação na ceia do Senhor. Tampouco reconheciam a
autoridade da Igreja Oficial.
Prosperidade na Bósnia:
A perseguição do império Bizantino levou a
muitos irmãos mais para o oeste ainda, até o Servia. E dali, perseguidos pela
cristandade oficial, até a Bósnia. Foi nessa terra onde aconteceu o seu
desenvolvimento mais importante. O rei da Bosnia, Kulin, converteu-se à fé dos
irmãos junto com toda a sua família. Naquele tempo o seu número se multiplicou
até cerca de 10 mil pessoas. Miloslav, príncipe da Herzegovina fez o mesmo, e
também o bispo da cidade. O país inteiro se separou da igreja oficial, e
experimentou um tempo de prosperidade nunca visto até então, devido à
laboriosidade exemplar dos irmãos.
Essa prosperidade chegou a ser muito
notória. Por toda parte as igrejas eram dirigidas por anciões. As reuniões se
realizavam pelas casas, e os lugares regulares de reunião eram simples; sem
adornos ou ornamentos, só uma mesa onde ficava o pão e a taça para comemorar a
ceia do Senhor. Também separavam uma parte dos seus ganhos para ajudar os
doentes e apoiar os irmãos que viajavam pregando o evangelho.
A hora da provação:
Entretanto, a reação não demorou a acontecer.
A Cristandade oficial ameaçou o rei da Bósnia e os seus principais governantes
com a guerra. Estes, atemorizados, submeteram-se ao Papa, renunciaram a sua fé
e prometeram trazer todo o povo debaixo do domínio da igreja oficial. No
entanto, o povo recusou aceitar a decisão do seu rei, pois tinham aprendido a
obedecer a Deus antes que aos homens. Por outro lado, o país se converteu em
uma cidade de refúgio para irmãos perseguidos de outros lugares. Até ali
chegavam os albigenses do sul da França, que escapavam do horror da cruzada de
extermínio que vinham em seu encontro. Também valdenses perseguidos do norte da
Itália, e outros da Boêmia e Alemanha.
Então, o Papa, ao ver que o Rei bósnio era
incapaz de submeter os seus súditos sob a igreja oficial, e que o número dos
hereges crescia de forma alarmante nos Bálcãs, encarregou o rei da Hungria uma
cruzada para exterminar a heresia, tal como tinha feito uns anos antes no sul
da França.
A guerra entre a Bósnia e a Hungria durou
muitíssimos anos, com vitórias e derrotas de ambos os lados. O país inteiro foi
devastado, embora as assembleias dos irmãos continuassem existindo pelo menos,
dois séculos mais.
Enquanto isso, um novo terror se acrescentou à guerra: a
Inquisição, que, fundada em 1291 no Concílio de Toulouse, contava com amplos
poderes para perseguir, torturar e queimar "hereges". Assim, a
perseguição continuou pelo menos por todo o século XIV e o XV. Finalmente o
país, cansado de tanta guerra, quase sem opor resistência, abandonou o seu rei
para render-se ao domínio turco no ano de 1463. E, deste modo, com a chegada do
Islã, a história dos valentes "amigos de Deus" pareceu chegar ao seu
fim nas terras balcânicas. Na Bulgária, contanto, alguns Bogomilos, cansados
das perseguições da Cristandade Oriental, passaram para a Cristandade
Ocidental, embora conservassem algumas lembranças do seu passado e suas
práticas, especialmente no concernente a reunir-se para comer todos juntos.
Praticamente nada ficou da literatura e dos
escritos dos irmãos. Tudo foi varrido pela fúria da perseguição e pela guerra.
Não obstante, sabe-se que as suas práticas distavam muito de ser uniformes,
pois não aderiam a um credo dogmático comum ou a um governo centralizado, mas
sim a uma fé singela e bíblica. No entanto, é evidente que se esforçaram por
viver uma vida conforme o ensino da Escritura e recusaram como estranhas todas
as práticas pagãs introduzidas pela igreja oficial. Ao mesmo tempo, foram
conscientes da existência de muitos irmãos que, em diversas partes, tinham
escolhido o mesmo caminho que eles. Deste modo, criaram uma poderosa corrente
de influência espiritual ao servir de ponte entre as antigas igrejas
apostólicas da Ásia Menor, e as igrejas dos irmãos na França (Cátaros e
Albigenses), Itália (Valdenses) e Boêmia (Hussitas).
Seu testemunho, selado tantas vezes com o
sangue do martírio, em uma resistência heróica que se prolongou por séculos,
foi a semente e o exemplo que mais adiante inspiraria a outros irmãos a tomar o
estandarte do testemunho ali onde eles o tinham deixado, para deixar atrás de
si tão somente o rastro de uma lembrança, um aroma, quase um murmúrio dos seus
passos pela história, mas, contudo, inextinguível: o testemunho do seu amor por
Cristo.
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