CRISTO É A RESSURREIÇÃO (WATCHMAN NEE)

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Tudo que passou pela morte e sobreviveu e experimentou a ressurreição. Quando algo sai do incólume da morte, temos a ressurreição. A morte veio ao homem após ele ter comido o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Desde então, o homem tem sido incapaz  de resistir à morte. Nada que entra no túmulo retorna. Havendo partido, não há mais volta. Em todo o universo, dentre incontáveis pessoas, há apenas um que passou pela morte e dela saiu - o nosso Senhor. "Eu sou... aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos" (Ap 1.17:18).

O Senhor é Senhor da ressurreição. Ressurreição fala do que passa pela morte, mas não é retido por ela. A bíblia usa a palavra "reter" para descrever o poder da morte. As pessoas morrem e não capazes de voltar à vida novamente, porque a morte as retém. Mas a morte não foi capaz de reter a Cristo. Isso, portanto, é vida e, também, ressurreição.

Ressurreição é a vida  que foi colocada na morte e está viva para sempre. O nosso Senhor Jesus é a vida porque Ele foi morto - tendo entrado no inferno, o recanto mais profundo da terra - no entanto está vivo para sempre. A morte não tem poder algum para segurá-lO em suas garras. Ele saiu da morte. Portanto, uma vida que leva as marcas da morte e, no entanto, está viva, é chamada de ressurreição.

Muitos perguntam: "Por que temos registrado em João, capítulo 20, que após o Senhor Jesus  ter ressuscitado dentre os mortos, Ele permaneceu com as marcas dos pregos em Suas mãos e da lança em Seu lado, para que Tomé pudesse tocá-los e investigar?" Sabemos que este é o significado da ressurreição. O que o Senhor pretendia mostrar a Tomé não era que Ele tinha sido ferido e havia morrido, mas que Ele tinha sido ferido e, no entanto, agora estava vivo. Ele leva em Seu corpo as marcas  da morte; no entanto, está vivo. Isso é ressurreição. Isso deve ser a verdade em nosso caso. Temos muitas "coisas" em nossa vida que não levam as marcas da morte e, portanto, não podem ser consideradas como ressurreição. Apenas o que leva as marcas da morte e está vivo pode ser chamado de ressurreição. Não pense que está tudo bem se você tiver eloquência, inteligência e habilidade. É possível tê-los sem ter a marca da morte. A presença dessa marca em nossa eloquência, inteligência e habilidade, as pessoas podem julgar se há ou não ressurreição. Um irmão pode ter grande talento, ser bastante capaz, dar a impressão de ter vida e, no entanto, não haver nenhuma marca de morte em seu  talento, por possuir muita confiança em si mesmo. Ele crê que nunca faz algo errado e está certo do sucesso em qualquer coisa que venha empreender. Essa pessoa possui enorme auto-confiança, auto-segurança, audácia e força própria, mas não tem a marca da morte. Não queremos dizer que uma pessoa ressureta não tenha força; o que estamos afirmando é que na força de alguém ressurreto há o sinal da morte. Ele é capaz de trabalhar, mas não atreve a confiar em si mesmo. Ele pode praticar muitas ações, no entanto perdeu aquele tom de audácia e sua força própria tornou-se em fraqueza. Isso é o que chamamos de ressurreição. Em sua carta à igreja em Corinto, Paulo confessa o seguinte: "E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós" (I Co 2.3). Essas são palavras ditas por alguém que verdadeiramente conhece a Deus. Quão é que entre os crentes haja tantas pessoas auto-suficientes e fortes. Aqui, porém, está que reconhece a si mesmo estando em fraqueza, em temor e em tremor. Há a marca da morte em seu corpo.

Consequentemente, a ressurreição e a cruz são inseparáveis. Aquilo que brota de nós mesmos é incapaz de se levantar novamente, uma que tenha passado pela cruz, pois se perde na morte. A cruz elimina. Ressurreição é somente o que passa pela morte e sobrevive, que tem o sinal da morte sobre si, e vive. Ressurreição implica a passagem pela morte, e a passagem pela morte sempre elimina alguma coisa.

Se realmente soubermos o que é ressurreição conheceremos a cruz como poder eliminador. Quando passarmos pela cruz, seremos libertos de muitas "coisas". Tornar-nos-emos pessoas totalmente diferentes, porque muitas "coisas" serão arrancadas de nós. Somente quem tem em si a vida pode experimentar ressurreição; sem vida em si mesmos, não há possibilidade de ressurreição. Por exemplo, podemos cortar um bloco de madeira em pedaços e enterrá-los. Após muitos dias esses pedaços estarão completamente apodrecidos e se tornarão totalmente inúteis. Mas se cortarmos um ramo de uma árvore e o plantarmos, depois de algum tempo terá brotado. Um apodrecerá enquanto o outro brotará. Tudo o que está morto certamente irá deteriorar-se; somente o que está vivo ressurgirá ao passar pela morte.

Portanto, a ressurreição do Senhor Jesus se baseia em Sua vida. Ele não podia ser retido pela morte por causa da vida imortal que há nEle. Com essa vida. Ele desvencilha da morte assim que é nela colocado. Devemos entender claramente que, ao passarmos pela experiência da cruz, levaremos muitas "coisas" para a morte, sem que haja qualquer chance de trazê-las para fora novamente. Somente o que é de Deus pode ser ressuscitado. Em nosso encontro com a cruz, somos verdadeiramente subtraídos. A cruz, na verdade, é uma enorme subtração; ela retira muitas "coisas".

Incontáveis irmãos frequentemente perguntam; "Como posso saber se morri? Como posso saber que a cruz tem feito sua obra em mim?" A resposta é simplesmente uma: se o Senhor tem trabalhado em sua vida, você perderá muitas "coisas". Se você tem permanecido intato desde que foi salvo - evidentemente isto significa  que a cruz não tem operado em você. À medida em que a cruz opera na sua vida, você notará uma grande obra de subtração, ou limpeza, que o Senhor tem realizado em você. E, como consequência, o que você achava capaz de fazer anteriormente, agora percebe que não é mais capaz; no que era confiante, atualmente já não confia tanto; e agora hesita naquelas situações que enfrentava com tanta coragem. Essas são algumas evidências da obra do Senhor. Se há ressurreição em sua vida, entre muitas "coisas" devem ter sido deixado para trás, no túmulo, uma que ali elas não podem sobreviver à morte. O que é de Adão não consegue viver ao passar pela morte. Mas a vida do Senhor e totalmente capaz de passar pela morte e sair novamente. Isso é ressurreição.

Algumas vezes as "coisas" perdidas na morte são novamente ganhas em Cristo. É como um ramo que, quando cortado de uma árvore parece morto, mas quando plantado na terra brotará outra vez. Assim sendo, ao dizermos que temos as marcas da morte em nós, não desejamos insinuar que daqui em diante não podermos mais falar ou trabalhar, mas apenas que não seremos mais tão descuidados e autoconfiantes em nossa fala ou em nossa ação. Quando uma pessoa é tocada por Deus - sendo tratada pela cruz - ela se torna fraca, temerosa e receosa e, consequentemente não ousa dizer "eu posso" ou "eu farei". Ela ainda fará o seu trabalho; agora, no entanto, com o temor do Senhor. Ela continuará a caminhar, só que agora caminha após Deus. Exatamente como Abraão andou passo a passo após Deus. Em sua vida, hoje a marca da cruz é claramente percebida. Ela foi trespassada por Deus, já não está intata, leva a marca da morte. Isso é ressurreição.

Hoje Deus tem comunhão com o homem na esfera da ressurreição, e a ressurreição inclui a cruz. Portanto, nada que não passe pela morte pode estar relacionado com Deus. Tudo o que pertence à esfera natural tem que morrer. Deus não se relacionará ou se comunicará na base da ressurreição com alguém que ainda não tenha morrido e ressurgido. Precisamos morrer e então sermos ressuscitados. A vida que recebemos é uma vida de ressurreição. Tudo o que apreendemos relacionados a Deus tem que ser levantado da morte. Nas questões espirituais  somos confrontados com um sério problema. Frequentemente pessoas servem a Deus com habilidades naturais, em de servirem com as que são ressurretas. Muitos têm zelo, mas poucos têm um zelo ressurreto - um zelo que passou pela morte e ressurreição. Observamos vários cristãos trabalhando hábil e diligentemente e, no entanto, essa habilidade e diligência são do primeiro tipo - o natural - e não do segundo, pois não passaram pela morte. Se nossa vida perante Deus é vivida no poder desses elementos naturais, não podemos dizer que tenhamos vida de ressurreição.

Alguém pode perguntar: "O que é o Corpo de Cristo?" O Corpo de Cristo é onde a ressurreição de Cristo é manifesta. Em outras palavras, o que quer que não pertença a ressurreição, não tem qualquer parte  no Corpo de Cristo. A Igreja não é o lugar onde você introduz algo da sua inteligência e eu acrescento algo da minha habilidade em lidar com as pessoas. A Igreja não é edificada pela nossa contribuição com habilidades naturais. A Igreja exclui tudo o que é natural e aceita somente o que é ressurreto. Sempre que o natural se manifesta a Igreja perde o seu caráter. Na Igreja não pode haver nenhum elemento que não seja ressurreto.

Muitos perguntam como a Igreja pode ser uma. Temos que compreender quão fútil é tentar alcançar a unidade pelos meios humanos. Os filhos de Deus precisam conhecer a cruz e tratar com a carne e com o que é natural para que cheguem à unidade. Nenhum método é efetivo, a menos que o povo de Deus experimente o Calvário. Nenhum problema na Igreja é resolvido quer por estratégias ou engenhosidade humanas. Na Igreja não há lugar nem para a carne, nem para que é natural, pois amos a danificarão. É bem verdade que a Igreja requer as contribuições e os ministérios dos homens; no entanto, deve  haver a marca da morte. O próprio Senhor é ressurreição, e Ele deseja ter uma Igreja ressurreta. Se desejamos ter tal experiência, então devemos nos voltar para Deus para que Ele faça a Sua obra em nossas vidas. Talvez estejamos bastante familiarizados com muitos ensinamentos; no entanto, sem recebermos um golpe básico do Senhor, permaneceremos os mesmos. Algumas vezes escorregamos e caímos. É verdade que sentimos a dor; no entanto, ela só dura por poucos dias ou meses. Mas se houvéssemos sido golpeados por Deus e suficientemente quebrantados,  não ficaríamos doloridos por apenas uns poucos dias ou poucos meses; conservaríamos essa por toda a nossa vida. Mancaríamos para sempre diante de Deus e a marca da cruz estaria sempre sobre nós.

Muitos anos após Paulo ter tido a visão na estrada de Damasco ele testemunhou: "Pelo que... não fui desobediente à visão celestial" (At 26.19). Se o Senhor tiver misericórdia de nós e um dia nos golpear severamente, nosso velho "eu" nunca será capaz de se levantar novamente. A ferida permanecerá em nós para sempre. Da mesma forma, como era possível tocar a feria que os pregos deixaram nas mãos dos Cristo ressurreto e que a lança deixou em Seu lado, uma ferida assim nunca desapareceria das vidas dos que hoje conhecem o Senhor como a ressurreição. Experimentando essa ferida, nunca mais nos atreveremos a orgulhar  em nós mesmos e em nossa força. Uma vez abatidos pelo Senhor, não nos levantaremos mais. Que as marcas da cruz sejam cada vez mais evidentes em nossa vida.

Nesta matéria, toda artificialidade é inútil, pois tudo aquilo que é simulado logo será esquecido. Mas uma vez que o sacrifício é colocado no altar e imolado, ele não se levanta nunca mais. Se sofrermos esse golpe, compreenderemos então quão incapazes, acabados e nulos somos. O nosso conhecimento da ressurreição é testificado por essa marca de morte. Conhecer a cruz é conhecer a ressurreição. O que permanece após a cruz é ressurreição. Oh! Quantas são as "coisas" que nunca se levantarão  novamente;  se foram para sempre ao passar pela cruz. Somente o que pode resistir à cruz possui valor espiritual. O que entra na sepultara e ali permanece é algo morto, no entanto, o que sai da sepultura levando a marca da cruz é ressurreição.

Oremos para que verdadeiramente possamos conhecer que Cristo é a nossa ressurreição e a nossa vida. Que o Senhor elimine muitas "coisas" em nós. Que não somente Ele nos leve a ter mais da Sua vida, como também menos de nós mesmos. Quão frequentemente vivemos de acordo com o que é natural, não conhecendo a disciplina de Deus e nem a cruz. Peçamos ao Senhor que, em Sua misericórdia, tudo aquilo que é natural gradualmente diminua em nós, enquanto o ressurreto seja cada vez mais manifesto. Que a vida e a ressurreição sejam realidades - não teorias - para nós. Que Ele nos mostre que não há ressurreição quando apresentamos nossas ações naturais, pois só produzem o que é natural e carnal. Que Ele exponha nossa carne pela luz da ressurreição. Se ainda não conseguirmos ver, que o Senhor seja misericordioso. Amém!

Extraído de: Cristo a essência de tudo o que é Espiritual (Watchman Nee)

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